Por Machado de Assis (1877)
MARGARIDA
Enfim, se não passa da declaração semanal...
EMÍLIA
Não passa. Tem a vantagem de ser um braceiro infalível para a rua e um realejo menos mau dentro de casa. Já me contou umas cinqüenta vezes a batalha em que ganhou o posto de coronel. Todo o seu desejo, diz ele, é ver-se comigo em São Petersburgo. Quando me fala nisto, se é à noite, e é quase sempre à noite, mando vir o chá, excelente meio de aplacar-lhe os ardores amorosos. Gosta do chá que se péla! Gosta tanto como de mim! Mas aquela do urso branco? E se realmente mandou vir um urso? MARGARIDA
Aceita.
EMÍLIA
Pois eu hei de sustentar um urso? Não me faltava mais nada.
MARGARIDA
Quer-me parecer que acabas por te apaixonar...
EMÍLIA
Por quem? Pelo urso?
MARGARIDA
Não; pelo coronel.
EMÍLIA
Deixa-te disso... Ah! mas o original... o amigo de teu marido? Que me dizes do vaidoso? Não se apaixona!
MARGARIDA
Talvez seja sincero...
EMÍLIA
Não acredito. Pareces criança! Diz aquilo dos dentes para fora...
MARGARIDA
É verdade que não tenho maior conhecimento dele...
EMÍLIA
Quanto a mim, pareceu-me não ser estranha aquela cara... mas não me lembro!
MARGARIDA
Parece ser sincero... mas dizer aquilo é já atrevimento.
EMÍLIA
Está claro...
MARGARIDA
De que te ris?
EMÍLIA
Lembra-me um do mesmo gênero que este... Foi já há tempos. Andava sempre a gabar se da sua isenção. Dizia que todas as mulheres eram para ele vasos da China: admirava as e nada mais. Coitado! Caiu em' menos de um mês. Margarida, vi-o beijar-me a ponta dos sapatos... depois do que desprezei-o.
MARGARIDA
Que fizeste?
EMÍLIA
Ah! não sei o que fiz. Fiz o que todas fazemos. Santa Astúcia foi quem operou o milagre. Vinguei o sexo e abati um orgulhoso.
MARGARIDA
Bem feito!
EMÍLIA
Não era menos do que este. Mas falemos de coisas sérias... Recebi as folhas francesas de modas...
MARGARIDA
Que há de novo?
EMÍLIA
Muita coisa. Amanhã tas mandarei. Repara em um novo corte de mangas. É lindíssimo. Já mandei encomendas para a corte. Em artigos de passeio há fartura e do melhor.
MARGARIDA
Para mim quase que é inútil mandar.
EMÍLIA
Por quê?
MARGARIDA
Quase nunca saio de casa.
EMÍLIA
Nem ao menos irás jantar comigo no dia de ano bom?
MARGARIDA
Oh! com toda a certeza!
EMÍLIA
Pois vai... Ah! irá o homem? O Sr. Tito?
MARGARIDA
Se estiver cá... e quiseres...
EMÍLIA
Pois que vá, não faz mal... Saberei contê-lo... Creio que não será sempre tão... incivil. Nem sei como podes ficar com esse sangue-frio! A mim faz-me mal aos nervos!
MARGARIDA
É-me indiferente.
EMÍLIA
Mas a injúria ao sexo... não te indigna?
MARGARIDA
Pouco.
EMÍLIA
És feliz.
MARGARIDA
Que queres que eu faça a um homem que diz aquilo? Se não fosse já casada era possível que me indignasse mais. Se fosse livre era possível que lhe fizesse o que fizeste ao outro. Mas eu não posso cuidar dessas coisas...
EMÍLIA
Nem ouvindo a preferência do voltarete? Pôr-nos abaixo da dama de copas! E o ar com que diz aquilo! Que calma! Que indiferença!
MARGARIDA
É mau! É mau!
EMÍLIA
Merecia castigo...
MARGARIDA
Merecia. Queres tu castigá-lo?
EMÍLIA
Não vale a pena.
MARGARIDA
Mas tu castigaste o outro.
EMÍLIA
Sim... mas não vale a pena.
MARGARIDA
Dissimulada!
EMÍLIA
(rindo)
Por que dizes isso?
MARGARIDA
Porque já te vejo meio tentada a uma vingança nova...
EMÍLIA
Eu? Ora, qual!
MARGARIDA
Que tem? Não é crime...
EMÍLIA
Não é, decerto; mas... Veremos!
MARGARIDA
Ah! Serás capaz?
EMÍLIA
(com um olhar de orgulho)
Capaz?
MARGARIDA
Beijar-te-á ele a ponta dos sapatos?
EMÍLIA
(apontando com o leque para o pé)
E hão de ser estes...
MARGARIDA
Aí vem o homem! (Tito aparece à porta da casa)
Cena V
TITO, EMÍLIA, MARGARIDA
TITO
(parando à porta)
Não é segredo?
EMÍLIA
Qual! Pode vir.
MARGARIDA
Descansou mais?
TITO
Pois não! Onde está o coronel?
EMÍLIA
Está lendo as folhas da corte.
TITO
Coitado do coronel!
EMÍLIA
Coitado por quê?
TITO
(continua...)
ASSIS, Machado de. As forças caudinas. In: ___. Teatro de Machado de Assis. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Publicado originalmente em 1877