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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

Fora o acaso ou uma doce inspiração, que arranjara o traje puro e simples que ela trazia? Tudo era branco e resplandecente como a sua fronte serena: por vestes cassas e rendas; por jóias somente pérolas. Nem uma fita, nem um aro dourado, manchava essa nítida e cândida imagem. Creio antes na inspiração. Lúcia tinha no coração o germe da poesia ingênua e delicada das naturezas primitivas, que se revela por um emblema e por uma alegoria. Ela me dizia no seu traje, o que nunca se animaria a dizer-me em palavras, que estava tão pura como eu a tinha deixado, do contato de outro homem. 

 

Lúcia expandia-se com tal efusão de contentamento, que, se há felicidade neste mundo, devia ser a que ela sentia. Entretanto, passada essa primeira e fugace irradiação, achei-a fria, quase gelada; apenas respondia às minhas carícias ardentes e impetuosas. Naquele momento atribuí à prostração natural depois de tão fortes emoções; porém me enganava. 

 

A frieza continuou aumentando de dia em dia, até que uma vez não me pude conter: 

 

— Parece-me que já te aborreceste de mim, Lúcia! 

 

— Creio que estou doente! sofro tanto! 

 

— De quê? Dessa moléstia do coração de que já me falaste ? 

 

Fugiu-lhe pelos lábios um sorriso sinistro. 

 

— Sim; dessa moléstia do coração que me há de matar! 

 

E então, como para desvanecer a impressão que me deixara a sua frieza, atirava-se aos meus braços com uma espécie de frenesi; mas a sua ternura tinha um desabrimento e rispidez que me lembravam as palavras de Sá, e as impressões acres da primeira vez que possuíra esta mulher. 

 

A minha Lúcia dos bons dias, que aveludava-se no estreito enlace com que me cerrava ao seio, que diluía-se de gozo engolfando-me num mar de voluptuosidades, que aspirava-me a vida num beijo para vazá-la de novo e gota a gota: essa, eu só revia nas minhas doces recordações; porque a realidade fugia-me, quando a buscava com desespero. 

 

Esqueci-me de lhe contar um incidente que se passou na mesma manhã da nossa reconciliação. Quis sair um momento para ir pagar as dívidas que Lúcia fizera na véspera. 

 

— Já estão pagas! me respondeu sorrindo e mostrando os recibos. 

 

— Por quem? perguntei com severidade. 

 

— Por mim! Quem, senão eu, tinha o direito de pagá-las? 

 

— Mas ontem o Couto te acompanhava... 

 

— O senhor queria que eu tivesse amantes! disse Lúcia entristecendo. Mandei chamar esse velho. Não sabe por quê?... Antes quereria dar-me a um escravo, do que vender-me a ele por todo o ouro deste mundo! 

 

— E a tua pulseira? Ficarás sem ela? 

 

— Psiu! fez Lúcia levando o dedo à boca e baixando a voz. Não fale mais nisso! Deixa-a ir; queimava! Ficou-me a sua lembrança! 

 

Tirou então o adereço de azeviche que eu lhe tinha dado. 

 

— Apareceu enfim! 

 

— Não se lembra do motivo?... Agora já não preciso escondê-lo! Vale os brilhantes que 

perdi. 

 

Desde então realmente a sua predileção por aquelas jóias tornou-se uma espécie de fetichismo para esse coração, que por muito tempo ermo e vazio, sentia ardente sede de afeição.  


XV 

 

Decorreram vinte dias. 

 

Chegando uma tarde vi Lúcia assustar-se e esconder sob as amplas dobras do vestido um objeto que me pareceu um livro. 

 

— Estavas lendo? 

 

Ela perturbou-se. 

 

— Não, estava esperando-o. 

 

— Quero ver que livro era. 

 

Meio à força e meio rindo consegui tomar o livro depois de uma fraca resistência. Ela ficou enfadada. 

 

Era um livro muito conhecido — A Dama das Camélias. Ergui os olhos para Lúcia interrogando a expressão de seu rosto. Muitas vezes lê-se não por hábito e distração, mas pela influência de uma simpatia moral que nos faz procurar um confidente de nossos sentimentos, até nas páginas mudas de um escritor. Lúcia teria, como Margarida, a aspiração vaga para o amor? Sonharia com as afeições puras do coração? 

 

Ela tornou-se de lacre sentindo o peso de meu olhar. 

 

— Esse livro é uma mentira! 

 

— Uma poética exageração, mas uma mentira, não! Julgas impossível que uma mulher como Margarida 

ame? 

 

— Talvez; porém nunca desta maneira! disse indicando o livro. 

 

— De que maneira? 

 

(continua...)

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