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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Mas se a magia era uma ciência sobrenatural, porém verdadeira, pois que operava as maravilhas que eu experimentara, e contava ir experimentar, por que não poderia ela também livrar-me da reprovação publica e torná-la mesmo se não em estima ao menos em tolerância ou indulgência?

Resolvi-me a falar sobre este assunto ao mágico, a quem regato capaz de realizar impossíveis.

Não compreendo, não posso admitir a pertinácia, com que o meu amigo Reis nega-se a reconhecer o miraculoso poder do armênio.

Ou eu me engano muito, ou anda ai receio pueril de expor-se ao ridículo, e de passar por explorador de suposto charlatanismo na opinião dos espíritos fortes.

Os espíritos fortes! Não conheço espíritos mais fracos do que esses que se dizem fortes. A sua força consiste na negação de tudo quanto não podem explicar ou pelos sentidos ou pela sua razão que só resolve dentro do círculo das idéias que recebe pelos sentidos. A sua negação 6 pois um trono consagrado à ignorância, e firmado no materialismo.

Dantes eu não sabia reconhecer a profundeza destes erros filosóficos; graças porém à influência da minha luneta mágica, e principalmente à visão do mal, acho-me curado da minha miopia moral.

Faz-me pena, não digo a incredulidade, porque não a admito, mas a obstinação do meu amigo Reis.

Um homem que tem nas suas oficinas um mágico da força do armênio, e mágico que lhe oferece prodígios, teima em não querer experimentar ao menos a capacidade extraordinária, os trabalhos estupendos desse esclarecido adepto da cabala.

Só o receio do ridículo, e o respeito exageradíssimo aos espíritos fortes pode explicar semelhante procedimento.

Pois eu tenho para mim que em proveito da humanidade, e em especial serviço ao público brasileiro, devo comprometer tanto quanto me for possível o Reis.

Se eu conseguir, como espero, segunda luneta mágica tão admirável como foi a primeira, anunciarei pelos Jornais a existência do armênio nas oficinas do Reis, e a diversidade e surpreendentes condições dos instrumentos óticos que ele pode temperar no fogo da magia.

Tenha o amigo Reis paciência, hei de comprometê-lo, e as justas exigências dos seus fregueses e do público o obrigarão a aproveitar-se da habilidade magica do armênio, e a facilitar a todos os instrumentos óticos por este preparados.

Se assim não quisesse, cumpria-lhe não ter e não conservar esse mágico em suas oficinas.



IX

Empreguei tanto tempo nestas reflexões, que de súbito as interrompi, quando o guarda do jardim veio dizer-me que era tempo de retirar-me, pois ia trancar as grades. A noite se adiantava.

Deixando o jardim, pensei que não me convinha recolher-me a casa.

Meu irmão, minha tia, e a prima Anica bem poderiam desconfiar do meu primeiro e prolongado passeio depois da inutilização da luneta mágica, e ficando alerta, embaraçar a minha saída de casa em desoras.

Achei prudente este juízo, e resolvi-me a matar o tempo, passeando pelas ruas desertas da cidade.

E passeei... e andei, como o judeu errante; ninguém me perguntou quem eu era, nem me espiou os passos.

Míope nada vi; mas distraí-me, ouvindo o ruído anunciador da negligencia da autoridade pública.

Ouvi o ressonar de mais de um indigente que dormia nos degraus do alpendre de uma igreja, e perguntei a mim mesmo se não havia na capital do Império um asilo para a indigência sem teto, para a miséria esfarrapada e sem recurso.

Ouvi as juras e os protestos de jogadores infelizes ou roubados, que saiam em furor de uma casa, onde se cantavam árias italianas ao som do piano na sala da frente, e se arruinavam fortunas ao lansquenê em alguma saia do interior; e perguntei a mim mesmo por que a polícia, que invade a alçada de todos os poderes do estado, não manda trancar as portas das casas públicas de jogo, onde tantos mancebos devastam as riquezas de seus pais, tantos caixeiros fazem paradas à custa das gavetas dos amos, tantos inespertos são criminosamente despojados por jogadores trapaceiros.

Ouvi o estrépito da orgia das famosas mulheres impudicas, e dos velhos ricos, e jovens viciosos que de copo de champanha em punho, e com a voz da lascívia nos lábios entoavam cantos obscenos em honra do ridículo da velhice, da corrupção da mocidade, e do desavergonhamento da nudez e do o próbrio do sexo, do recato, do pudor, e da honestidade; e perguntei a mim mesmo que exemplo davam aos filhos esses velhos, que esperanças devam à pátria esses Jovens, que futuro esperavam as esposas e as filhas dos primeiros, as mães e as irmãs dos segundos.

Ouvi...

Deus me livre de dizer tudo quanto ouvi, rebentando do interior de certas casas, ou falando sem reserva nas ruas ao ruído abafado ou a algazarra vergonhosa do vício em dissimulação ou em desenvoltura.

(continua...)

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