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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

Ela tinha-se erguido trêmula; e foi-se a pouco e pouco retraindo até cair de joelhos. 

 

— Foi uma loucura, e eu mereço toda a sua cólera. Mas para que me fazer penar assim, meu Deus! Que prazer lhe podia dar essa mulher?... Não me tinha a mim? Uma escrava humilde, pronta para lhe obedecer, e que em paga de tanta submissão só lhe pedia que a não expulsasse! 

 

— E a senhora não chamou um velho desprezível para sua casa? 

 

— É tão diferente! Eu! Não fui atirada contra minha vontade à lama de que desejava erguer-me? Recuando ainda, não fui à noite repelida cruelmente e lançada nos braços desse homem, que no meu desespero eu procurei, por ser mesmo o ente mais vil e ignóbil que eu conheço; pois era preciso que o suplício fosse bastante violento para matar-me logo, e sem lenta agonia! No baile, apesar de tudo, não esperei uma palavra, um sinal para correr a seus pés, e suplicar-lhe como agora o meu perdão! 

 

Lúcia pousou a cabeça sobre os meus joelhos, sufocada pelo pranto; e eu não a ergui logo e não a apertei ao meu seio, porque achei-me tão infame a par dessa mulher, que sentia um vexame insuperável. Por fim levantei-a nos meus braços, e confesso que foi corando de vergonha. 

 

— Quem deve pedir perdão desta como de todas as vezes, Lúcia, sou eu: mas não o mereço, não. 

 

— Basta! Já me falou como outrora! Disse o meu nome! Que mais quero eu saber? Esqueci tudo. 

 

— Deixa-me falar; não me interrompas. Sou um miserável, indigno de ti. Eu só com o meu orgulho estúpido fui causa do que temos sofrido; mas é justo que a punição recaia sobre mim unicamente. Se a idéia de que tive um instante aquela mulher, te aflige, expele a lembrança desse mau sonho; pisei em sua casa pela primeira vez hoje, há meia hora. Vi a pulseira, compreendi tudo, e corri até aqui! 

 

Que êxtase de bem-aventurança foi o de Lúcia quando ouviu a confissão que eu lhe fazia! A mulher quebrada de fadiga, prostrada por uma noite de vigília e de violentas emoções, transfigurou-se de repente: o anjo de suave beleza surgiu na sua auréola luminosa, ao bafejo de uma felicidade celeste. 

 

— Passei esta noite, continuei, cheio de teu pensamento e de tua imagem. Às duas horas estive aqui, não te disseram? Esperei-te passeando na calçada até quase ao amanhecer; e as torturas que eu sofri é impossível dizer. Mas eu a procurei; não me posso queixar de ti, não tenho que pedir-te contas! Fui eu que te arrastei à força, louco que eu estava. 

 

— Não fale mais nisso! Acabou; foi um pesadelo que tivemos. Esqueça tudo! Eis o que vai apagar para sempre essa lembrança importuna. 

 

Dizendo isto Lúcia estendeu-me o lábio risonho; eu recuei como se visse por entre o carmim brilhar o dente de uma víbora. Ela empalideceu. 

 

— Nunca mais, eu juro, Lúcia, tu me ouvirás as palavras que ontem te disse; nunca mais também me verás rejeitar por causa das calúnias de alguns miseráveis as provas de tua afeição. Mas esse beijo, agora!… Não! não o posso aceitar, e não me perguntes a razão! 

 

 Lúcia cobriu-me com um olhar límpido, raio de luz de sua alma; o seu sorriso era sublime de candura. 

 

— Aquele homem não tocou no meu corpo, porque até a mão que roçou na sua, estava calçada com esta luva, que eu já despedacei, disse estendendo a ponta do pé. Mas tem razão, bastava o seu hálito para manchar. Olhe para mim. Quando eu despir esta roupa, despirei trapos que para nada servem! 

 

Foi então que reparei na desordem de seu traje. 

 

— Não me enganas, Lúcia? 

 

— Que juramento quer que lhe dê? O mais sagrado!...Se não fosse assim, teria ânimo de falar-lhe, de vê-lo ainda! Também eu, não sabe? Estive na rua até quase ao amanhecer, olhando a casa onde supunha que o senhor apertava nos braços outra mulher! Não se morre de dor, porque eu não morri esta noite! 

 

— Não me devias dizer semelhante coisa para me punir! 

 

Fui eu que procurei então o lábio que ela há pouco me oferecera. 

 

— Espere!... 

 

Lúcia demorou-se algum tempo. Quando apareceu, saía do banho fresca e viçosa. Trazia os cabelos ainda úmidos; e a pele rorejada de gotas d'água. Rica e inexaurível era a organização dessa moça, que depois de tão violento abalo parecia criar nova seiva e florescer com o primeiro raio de felicidade! 

 

(continua...)

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