Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
—Oh! eu era, como sou, tão míope que posso considerar-me cego, e mercê daquela admirável luneta vi distintamente, perfeitamente. . .
—Até ai creio, é possível; mas na famosa visão do mal não acredito.
—E todavia era real e incontestável.
—Eu só tenho fé em Deus, e creio somente na verdadeira ciência; se a magia fosse uma realidade, e eu quisesse explorá-la, ganharia milhões em poucos meses.
—Como?
—A mania do nosso armênio se agrava cada vez mais: ofendido pela incredulidade, e, diz ele, dedicado a minha pessoa pela influencia irresistível de não sei que fluido misterioso e inescrutável de que ele me fala, oferece-se para operar maravilhas, que tornariam o meu armazém em oficina encantada.
—Que maravilhas?+
—Entre cem outras por exemplo as seguintes: óculos que façam ver o que se passa a mil léguas de distancia; pequenos espelhos polidos pela magia que reproduzam a imagem do rosto de uma velha com todas as graças da sua mocidade passada, binóculos, por um de cujos vidros, se veja todo o passado e pelo outro todo o presente da vida intima da pessoa que se observa; instrumentos de precisão ótica que patenteiem o ouro, as pedras preciosas, as riquezas e os segredos dos monstros oceânicos que se escondem por baixo das camadas da terra, no leito dos rios, e no fundo dos mares; lunetas e pince-nez que emprestam à mulher morena da Arábia e a mameluca do Brasil a palidez romanesca das filhas melancólicas da poesia dos sonhos, e aos olhos negros da caucasiana, e aos negros cabelos da espanhola os olhos cor do céu azul da inglesa, e os cabelos de ouro das princesas dos cantos de Ossian.
—É extraordinário!
—O armênio com efeito o é; quer saber? no dia e na hora, em que o senhor quebrou a sua luneta, ele veio ter comigo e disse-me: "a salamandra libertou-se: o seu míope quebrou a luneta magica".
—É possível?!!!
—Dois dias depois as folhas diárias da capital deram conta do caso.
—E onde esta o armênio?
—Sempre encerrado em seu gabinete prestigioso no fundo do nosso armazém.
—Adivinhou então o meu infortúnio?
—E espera-o.
—Espera-me?
—Assegurou-me que o senhor nos procuraria amanhã: marcou-me o dia.
—Ainda esta!. era a minha idéia; confesso-o. E não o espanta essa previdência do futuro? Essa vidência do pensamento alheio?
—Espanta-me por certo; mas sei também que a ciência está longe de ter pronunciado sua última palavra sobre os assombrosos fenômenos do magnetismo..
—E o armênio
—Conta com a sua visita. —Eu hesitava e temia...
—E ele assegura que dará novo e infalível recurso para vencer a sua miopia, novo e infalível porém não o mesmo.
—E se eu bater à sua porta?...
—A porta da nossa casa abre-se a todos os homens, que vão bater a ela, e para os honestos, para os honrados nunca houve hora em que não se abrisse.
—Irei amanhã.
—É o dia marcado pelo armênio.
—Marcou ele também a hora?
—Disse que do dia e da hora a escolha lhe pertence e que do dia e da hora depende a condição benigna ou maléfica do socorro que lhe poderá dar.
—E qual a hora mais propícia?
—Não quis dizer.
—Em todo caso terei luz para os meus olhos?
—Terá, conforme ele assevera.
—Depois da meia-noite começa o dia de amanhã: irei depois da meia-noite... estou ansioso... irei, se a sua bondade chega a tolerar a minha visita em horas, em que o descanso e o sono é um direito de todos.
—Hei de velar esta noite; não creio na magia; quero, porém, desejo e peço uma segunda experiência do poder desse armênio que se presume mágico, e se julga capaz de realizar impossíveis.
—Espere-me, pois que eu irei.
—Quer que previna o armênio?...
—Como lhe parecer melhor.
—Em tal caso prefiro experimentar, se espera e adivinha a sua visita. Não o prevenirei.
—Conte pois comigo; mas... depois da meia-noite.
—Por que tão tarde?...
—Não sei: instintivamente desejo falar ao armênio em hora mais próxima do dia...
—Achar-me-á velando.
O Reis levantou-se e, depois de me apertar a mão, retirou-se.
VIII
Fiquei só, refletindo.
Eu ia de novo recorrer a magia, e, se alcançasse outra e igualmente poderosa luneta, talvez expor-me de novo às perseguições do povo.
Ter uma luneta mágica para não usar dela, seria criar para mim o martírio de Tântalo.
Usar da luneta mágica novamente obtida seria perigo quase certo para a minha segurança.
Reproduziram-se pois as minhas tristes apreensões, e os meus cuidados, e se me antolhava um tormento que ainda não provara, a certeza da visão, ou a impossibilidade de exercê-la pelo medo da perseguição. . .
Portanto era minha sina sofrer sempre, ser sempre como o proscrito dos homens!
E todavia em todo caso eu desejava, eu queria poder ver.
(continua...)