Por José de Alencar (1862)
— Pode ser que ela esteja agora em crise financeira; mas asseguro-lhe que a questão não era de dinheiro, não. O Couto, como todos os velhos gamenhos que compram o amor, à hora certa, é mais que generoso, é pródigo; vi-o oferecer a Lúcia somas fabulosas que ela rejeitava sempre e com desprezo.
Essas palavras me consolaram. Uma débil esperança espontou-me no coração; corri à casa de Lúcia.
A porta ainda estava aberta; Lúcia não tinha voltado! eram perto de três horas e meia, naturalmente estava em casa do Couto.
Pus-me a passear na calçada; ao surdo rodar de um carro que passava longe, aplicava o ouvido para conhecer se ele se aproximava; o rumor se desvanecia e com ele minha esperança, para ressurgir de novo, e de novo extinguir-se. Nestas alternativas sem repouso vi os primeiros clarões do dia.
Dirigi-me tristemente para o hotel e dormi, porque a fadiga me vencia.
Eis qual tinha sido a minha noite; o acordar não foi menos cruel. Sucede com as feridas d'alma o mesmo que às feridas do corpo: é quando elas esfriam, que a dor se torna aguda e lancinante. Lembrei-me do que sucedera; repassei uma a uma as circunstâncias do dia anterior; reconheci a minha grosseira imbecilidade; e a consciência de que eu tinha sido o mais culpado, devia dizer o único, exacerbava o meu sofrimento.
E essa pobre moça, a Nina, inocente da minha loucura, que talvez por meu respeito perdera o seu amante? Era a primeira vez, desde que a deixara, que me recordava dela. Devia-lhe uma desculpa; e como não tinha outra coisa que fazer, aproveitei esse pretexto para sair.
Pensava, chegando à casa de Nina, encontrar um rosto fechado, um momo despeitado, e um bom-dia atirado da ponta de um beiço desdenhoso. Qual não foi portanto a minha surpresa vendo-a precipitar-se para mim, abraçar-me com ímpeto, e atirar-me de repente pela testa e pelo rosto uma chuva de carícias que me azoou.
Afinal consegui desprender-me dos braços que me enlaçavam; ia pedir uma explicação, quando Nina atalhou-me:
— Estou muito zangada com o senhor! disse com um ar que exprimia inteiramente o contrário. Fazer-me esperar até não sei que horas!
— Confesso que cometi uma falta; mas há de me desculpar.
— Ah! Cuida que a pulseira que me mandou paga o prazer de sua companhia!
Enganou-se!...
— A pulseira! balbuciei sem compreender.
— É linda que faz gosto. Não há segunda: a Lúcia não tem melhor. Também o senhor nem sabe como lhe agradeço.
E um novo granizo de beijos ia cair sobre mim; mas desta vez desviei-me a tempo.
— Está gracejando! Que quer dizer isto?
— Ora, faça-se desentendido! Já não se lembra de que me mandou pelo seu criado esta manhã?
Julguei que a moça tinha perdido a cabeça, ou que eu sofria uma mistificação.
— Ah! percebo! exclamou Nina que de seu lado também me considerava com surpresa. Queria achar-me com. ela! Tem razão.
Saiu e logo voltou trazendo um cartão meu e uma caixa de jóia que eu abri precipitadamente. Tinha reconhecido a pulseira de brilhantes que dera a Lúcia no dia seguinte à ceia do Sá.
Entrei no primeiro tílburi que passou, e atravessei as ruas a galope.
Lúcia estava atirada a um sofá de bruços nas almofadas que escondiam-lhe o rosto. Tinha o mesmo vestido de seda escarlate que levara ao teatro, porém amarrotado, com as rendas despedaçadas e os colchetes arrancados da ourela, onde se viam os traços evidentes das unhas. Os cabelos em desordem flutuavam sobre as espáduas nuas; a grinalda despedaçada, o leque e as luvas jaziam por terra; numa cadeira ao lado estavam amontoadas todas as suas jóias.
Vendo-me, ergueu-se de um salto e quis precipitar-se para mim; porém decerto o meu olhar cru a conteve, porque deixou-se cair sentada sobre o sofá em que estava. Sentei-me também, e incomodado; viera com uma cólera violenta; mas começava a sentir-me mau e pequeno diante dessa mulher sublime nas suas paixões. O seu rosto pisado, os olhos injetados de sangue e febricitantes ainda aumentaram o meu vexame.
Peguei maquinalmente nas jóias que estavam sobre a cadeira.
— Estas jóias são de muito valor!... Mas falta aqui uma, a mais insignificante! Não era digna por certo de brilhar no seu braço; atirou-a de esmola a alguma mendiga, e deu uma lição ao bobo que teve a ousadia de oferecer-lhe semelhante miséria. Aquilo quando muito, é o preço de uma noite de qualquer mulher à-toa, da Nina por exemplo.
(continua...)
ALENCAR, José de. Lucíola. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2047 . Acesso em: 21 jan. 2026.