Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
Eis como pensavam e murmuravam quase todos ao considerarem o meu infortúnio.
Volúvel e caprichosa cidade! o seu juízo se modifica, e até muda completamente com o volver de alguns dias, e o objeto das maldições pouco a pouco se torna objeto de simpatias.
Estudai a capital; a nossa é provavelmente como todas as outras de iguais ou maiores proporções: os seus habitantes vivem sujeitos ao contagio moral dos sentimentos; uma opinião entra em moda, poucos a examinam e discutem, a novidade a recomenda, o contágio moral a espalha, mais tarde a reflexão começa a patentear-lhe as falhas, o espírito ressentido reage, a reação propaga-se por novo contágio, e se pronuncia fulminando-a, e então nem distingue o que ela pode ter de exatidão e de verdade entre os erros, aliás a principio aplaudidos como acertos.
A opinião pública é deslumbrante, mas leve e fugitiva; assemelha-se às fadas dos contos orientais, encanta, porém ilude; é igual às jovens formosas e facilmente apaixonadas, seduzem e cativam e mudam de amor em breve prazo.
Quando cheguei ao fim destas e de outras semelhantes reflexões, era noite, e eu me achava sentado em um dos bancos de pedra do jardim da Praça da Constituição.
Ninguém reparava em mim, senti-me ou isolado ou defendido pela indiferença de todos, e todavia, poucos dias antes eu tinha sido naquele mesmo lagar causa de alvoroço geral e vira a multidão fugir aterrada da minha presença, como se eu estivera na Ásia e afetado da poste negra.
É triste, miséria da humanidade! Aquela indiferença que em minhas apreensões desse mesmo dia, eu desejava tanto, e tanto pedira ao céu, aquela indiferença que era a paz que a população me concedia, acabou por fatigar-me, por despertar o ressentimento da mais estulta vaidade em minh'alma de pobre pecador.
A popularidade é sempre um pedestal em que o homem se levanta acima dos outros; mas a impopularidade também é pedestal, distingue pela reprovação ruidosa, e em vez de abaixar, também levanta, também arranca do vulgar a sua vítima, e para açoitá-la, eleva-a ao pelourinho, e mostra-a pela sua perseguição ou pelo seu ódio acima das proporções comuns da generalidade.
Eu já havia experimentado a distinção torturadora da aversão popular; eu já tinha sido notabilidade embora adiada, e senti-me abatido, desprezado, aviltado, reduzido à invisível nulidade pela indiferença com que me deixavam nem olhado no meu banco.
Houve um momento em que atiçado, impelido, enlouquecido pela influencia traiçoeira da mais estúpida vaidade, tive ímpetos de levantar-me, e de bradar àquela multidão que não me via: "olhai-me! persegui-me! eu tenho a visão do mal..."
Mas exatamente nesse momento alguém me tocou com a mão no ombro, e me disse ao ouvido:
—Até que enfim nos encontramos!
VII
Vi diante de mim e logo sentado a meu lado um vulto de homem, de quem não pude distinguir as feições e nem ao menos a moda e a cor dos vestidos.
—Quem é? perguntei.
—Pois a tal ponto se esqueceu de mim?...
—Se me conhecer, deve saber que sou quase cego.
—Sou o Reis.
Reconheci imediatamente a voz do Reis, mal pude abafar um grito que me rompia da alma e creio que teria caído de joelhos, se esse excelente homem não me tivesse contido.
—Perdão! balbuciei; eu fui um ingrato, perdão!
—Seja prudente, disse-me ele; conversemos em voz baixa; não convém que o reconheçam.
Apertei com ardor as mãos do meu bom amigo Reis, e ainda assim tive um pensamento suspeitoso, maligno; pois perguntei a mim mesmo, se a visão do mal não desmentiria as aparências tão eloqüentes e persuasivas da bondade, e do generoso caráter deste homem.
Era a dúvida, era o ceticismo que a visão do mal tinha inoculado no meu espírito
Guardei silêncio inexplicável pela desconfiança que me inspirava a humanidade; mas o meu egoísmo os cálculos do meu interesse pessoal fizeram com que eu mantivesse apertadas entre as minhas as mãos daquele, em que de novo eu depositava todas as esperanças, de remédio, de recurso, de socorro para a minha miopia.
—Então inutilizou a sua luneta? perguntou-me o Reis.
—É verdade: em um acesso de desespero pelo horror que tive de mim próprio, ousei praticar esse ato de loucura.
E referi miudamente toda a história dos prodígios da luneta mágica, e todos os desgostos que eu sofrera por ela.
—Também eu por minha parte não sofri pouco; porque perseguiram-me e há quem me persiga ainda por lunetas mágicas; mas com efeito é extraordinário, e incompreensível!...
—A luneta?
—Não; continuo a não acreditar no poder da cabala; é porém incompreensível a ilusão pasmosa dos seus sentidos.
—Não houve ilusão; eu juro...
—Juram do mesmo modo e com a mesma convicção quantos têm sido vitimas de igual ou semelhante exaltação enferma do espírito.
(continua...)