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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

Cuida que a minha raiva brutal ficou satisfeita? 

 

Entrei no baile aspirando no ar um faro de sangue. É verdade, tinha frenesi de matar essa mulher; porém matá-la devorando-lhe as carnes, sufocando-a nos meus braços, gozando-a uma última vez, deixando-a já cadáver e mutilada para que depois de mim ninguém mais a possuísse. 

 

Ela lá estava sempre bela, sempre radiante. Júbilo satânico dava a essa estranha criatura ares fantásticos e sobrenaturais entre as roupas de negro e escarlate. 

 

Junto dela descobri a Nina, que, apesar da sua graça, desaparecia completamente naquela zona que Lúcia deslumbrava com a sua reverberação. Mas eu que via com os olhos do despeito, percebi-a imediatamente. 

 

Nina sabia das nossas relações, e ignorava ainda o desenlace muito recente. As minhas pretensões deviam pois ter para ela o encanto que acha toda a mulher em afligir outra que lhe é superior pela graça e formosura: assim explicam-se os avanços de amabilidade que me fez à custa de algum crédulo e paciente admirador; deu-me uma entrevista em sua casa depois do baile. 

 

Mas esse favor, discretamente concedido, não me servia; era preciso que mais alguém o soubesse. 

 

— Então, uma hora depois do baile? disse eu alçando a voz. 

 

— Sim; mas segredo! respondeu Nina levando o dedo à boca. 

 

— Estará só? perguntei para mais fazer ainda ouvir a minha fala. 

 

Nina fez um momo gracioso; os ombros de Lúcia agitaram-se com um tremor nervoso. 

 

Não conheço mais estúpido animal do que seja o bípede implume e social, que chamam homem civilizado. 

 

Na véspera era feliz. Estava numa brilhante reunião, onde se achavam talvez as mais bonitas senhoras do Rio de Janeiro. Observando-as com o culto do belo e a religião da mulher, que é inata em mim, conhecia que em graça e atrativos não tinha que invejar ao mortal ditoso a quem elas abandonassem um dia os primores de sua mocidade. Mais linda que todas, uma mulher me esperava, que em troca da pureza que não tinha, me guardava seus imensos tesouros de voluptuosidade; ela me esperava cheia de mim; e para não deixar-me um instante, me acompanhara de longe com os olhos através do mundo que fechara-lhe as suas portas. 

 

Bastou uma palavra, um sentimento de convenção, para que o meu orgulho destruísse a felicidade que as suas mãos delicadas tinham tecido com tanta paciência e esmero. E como remate da minha demência, depois de haver torturado aquela pobre mulher, depois de a ter insultado covardemente, acabava de entregá-la a um velho histrião, para agarrar-me à fralda da primeira saia que passava pelo meu caminho. E eu considerava isto a minha vingança! 

 

Como tinha razão o poeta que chamou o homem um menino corpulento — puer robustus!  


XIV 

 

Foi uma noite horrível. 

 

O baile terminara às duas horas. Lúcia assistira até o fim, o que ainda mais me irritou, porque eu desejava triunfar com a sua saída precipitada, depois do desprezo que lhe mostrara. «Se ela se retirasse, pensava eu, correria à sua casa para pedir-lhe perdão». Mas não acredite que o fizesse: procederia com o mesmo orgulho estúpido que me dominou no momento em que ela despediu o Couto e renunciou ao baile para ficar comigo. 

 

Na retirada o velho esperava-a na porta, e partiram ambos de carro. 

 

— Está acabado! disse comigo. Não pensemos mais nisto. 

 

Porém não era coisa fácil apagar no meu espírito a profunda impressão que aí deixara gravada a imagem de Lúcia. Tomei o braço do Rochinha, que encontrei ao sair, e fomos cear no primeiro hotel que encontramos aberto. Em qualquer outra ocasião esse moço me enjoaria com a sua afetada decrepitude moral; nesse momento era um homem que podia falar-me de Lúcia e dizer mal dela. 

 

Com efeito o Rochinha contou-me diversas anedotas escandalosas da vida de Lúcia; e concluiu dizendo: 

 

— Não acredito ainda que esse Diógenes do Couto seja seu amante. 

 

— Ouvi-a confessar esta noite mesmo. Saíram juntos do baile. 

 

— Pois admira-me; porque há muito tempo que ele a persegue debalde. Lúcia tinha-lhe tal birra, que no dia em que o via, ficava de um humor insuportável. 

 

— São coisas que passam. O velho abriu os cordões da bolsa; e o motivo da antipatia desapareceu. 

 

(continua...)

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