Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
O mano Américo teve a bondade de fazer-me ouvir um discurso consolador, em que me demonstrou que eu tinha sido vítima de um longo acesso de loucura; que eu nunca vira mais do que dantes; que a minha miopia não era suscetível de recurso ou socorro algum que me emprestasse vista, e que enfim, quebrando a luneta, eu me libertara de uma ilusão perigosíssima, e rematou o discurso com a eloqüente peroração, jurando que estava pronto a continuar a ver e pensar por mim.
A tia Domingas mandou apanhar todos os pedaços do vidro que eu quebrara, e lançá-los ao mar, dizendo que havia neles malícia do diabo, de que eu estivera possesso, durante não poucas semanas, e manifestando finalmente a crença de que ao poder das suas orações fora devido o despedaçamento da luneta mágica, e de que a salvação da minha alma, e a doce tranqüilidade da minha vida teriam tanto mais segurança, quanto mais completa e irremediável fosse a minha miopia, que me livrara de enormes pecados.
A prima Anica foi dos três parentes o único que teria podido fazer-me sorrir, se nos meus lábios fosse ainda possível ralar um sorriso suave, e haver no meu coração um resto de confiança para essa moça interesseira e egoísta.
A prima Anica procurou convencer-me de que a minha luneta diabolicamente encantada me fizera ver os objetos ao contrário do que eles são na realidade, e que por isso mesmo eu devia acreditar e considerar formosa a senhora que me tivesse parecido feia ou menos bonita, e ter em conta de virtuosa, recatada e dedicadíssima aquela que pela visão do mal eu houvesse julgado loureira, má e calculista. Lembrou-me Cícero, pleiteando a própria causa.
E logo depois dessa teoria sobre a luneta mágica, a prima perseguiu-me cruelmente para que eu lhe confiasse em segredo todas as revelações que eu recebera da visão do mal relativamente às senhoras do seu conhecimento. Uma vez, por inocente malícia, comuniquei-lhe uma apreciação cruel, talvez aleivosa, dos sentimentos, e do caráter da mais intima, e aparentemente mais estimada das suas amigas, que aliás eu não tivera ocasião de observar com a minha luneta.
A prima Anica, ouvindo-me, exclamou:
—É isso mesmo! exatíssimo juízo!...
—Anica, disse-lhe eu; a minha luneta era diabólica, como você me assegura, e o que ela me fez apreciar e me mostrou, deve-se entender pelo contrário, segundo a sua opinião...
—Primo, respondeu-me Anica sem hesitar, o diabo para enganar facilmente, às vezes diz e mostra a verdade.
Eu fiquei profundamente convencido, de que houvera menos diabo na minha luneta mágica, do que havia nos pensamentos e nos sentimentos da prima Anica.
III
Depois do oitavo dia da minha voluntária clausura despertei no seguinte ao canto de um cenário que festejava a aurora.
Levantei-me e fui debruçar-me a janela que abria para o jardim.
O frescor suave das auras, o perfume das flores, o ruidoso acordar da cidade lembraram-me aquele anelado amanhecer do dia, em que eu fizera a primeira experiência da minha luneta mágica; e as arrebatadores impressões que eu recebera, podendo ver, e admirando a aurora, as flores, as borboletas, a natureza enfim.
Os pesares, as sensações repugnantes, os tormentos e o horror da visão do mal como que se varriam da minha memória exclusivamente empenhada em avivar a saudade do bem que eu havia Perdido.
Apoderou-se de mim melancolia tão profunda e sombria como era profunda e sombria a noite dos meus olhos.
Passei um dia de silenciosa amargura, e arrependi-me mil vezes de haver quebrado a minha luneta mágica.
Se eu tivesse sido mais prudente, e ainda mesmo dissimulado, por certo que não me teriam faltado meios de iludir quantos me cercavam e cercam, e de conservar a preciosa luneta.
Agora é tarde, e o meu pungente arrependimento não me aproveita, e só duplica a aflição que me acabrunha.
A cada momento vinham-me à lembrança o Reis e o armênio, o Reis tão bom e amável, tão complacente e obsequiador; o armênio tão hábil e tão sábio; tão poderoso em magia, e tão leal em seus conselhos.
Lembrança inútil!
Eu havia sido tão descortês, tão ingrato em meu proceder em relação ao Reis, que me não era licito pensar em ir de novo bater à sua porta, que ele tinha o direito de me fechar no rosto.
E o armênio? Como poderia eu aparecer, mostrar-me diante dele depois da minha desobediência aos seus preceitos?...
E todavia eu teimava sempre em lembrar-me do Reis e do armênio. . .
E de instante a instante perguntava a mim mesmo, se o armênio ainda se conservava trabalhando nas oficinas do Reis...
A idéia de voltar ao famoso armazém de instrumentos óticos da Rua do Hospício, começava a perseguir-me, a dominar-me, como a paixão mais violenta escraviza, e move, impele e arrebata a sua vitima.
Dois únicos sentimentos ainda me tolhiam os passos: eram o vexame e o medo.
IV
E claro que eu estava em caminho adiantado para vencer o vexame, que me fazia hesitar em apresentar-me na casa do Reis.
(continua...)