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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

Estava excessivamente pálida, e a cor escarlate do vestido ainda lhe aumentava o desmaio; os olhos luziam com ardor febril que incomodava, e os lábios se contraíam num movimento que não era riso nem ânsia, mas uma e outra coisa. Entretanto nunca essa mulher me pareceu tão bela; a idéia de que ela se enfeitava para outro homem irritava-me a ponto que estive para precipitar-me e espedaçar, arrancando-lhe do corpo, as galas que a cobriam. 

 

— Ainda não a felicitei pelo seu novo amante! 

 

— Quem não tem o direito de escolher, aceita o primeiro que lhe chega; e o mais ridículo é sempre o melhor. 

 

— É naturalmente para ele que está se pondo tão bonita! 

 

— Acha que estou bonita? perguntou com o sorriso que deve ter o condenado para o Sol nascente que vem alumiar o seu suplício. 

 

— Nunca a vi tão fascinadora, nem vestida com tanto primor. Ele merece. 

 

— Dizem que outrora ornavam-se as vítimas para o sacrifício. 

 

— Isso foi outrora; mas hoje que os sacrifícios são incruentos, a vítima orna-se para o sacrificador; também em vez do sangue daquela, é o ouro deste que corre nas aras consagradas ao prazer. 

 

Lúcia quis responder-me, mas reprimiu-se a tempo de sorver a palavra que já lhe espontava no lábio. Foi uma coisa que notei desde que começaram as nossas relações: esse espírito mordaz e cintilante, esse verbo rápido que não deixava sem resposta nem um motejo, se ofuscava sempre e emudecia diante de mim. 

 

— Pode-se saber onde vai, se não é segredo? Dirige-se talvez ao templo do sacrifício. 

 

— Vou ao Paraíso. 

 

Tão alheio andava eu deste mundo fluminense! Nem sabia que naquela noite havia um baile público. 

 

— Ah! vais ao baile! Então não se demore; são horas. 

 

— Estou à espera de alguém. 

 

— Diga do Sr. Couto; já não é segredo. E agora me lembro, a minha presença aqui pode comprometê-la; eu me retiro. 

 

— O senhor está na minha casa; não a chamo sua para não ofendê-lo. 

 

— Ou para que não me venham tentações de ficar. 

 

— Quem lhe impede? 

 

— Deveras!... Seria agradável para a senhora deixar um paciente em casa contando as horas, enquanto vai ao baile exibir a sua nova conquista, e arrular pombinhos nalgum hotel de Botafogo. Na volta esse paciente pode servir para apagar o fogo que as brumas do inverno apenas sopraram. Infelizmente, por mais inocente que seja esse pequeno manejo, não estou disposto a prestar-me a ele. 

 

— Que gosto tem em me estar assim torturando! O senhor sabe que por mais cruel que seja a sua zombaria, não sei retorquir-lhe! Não quer que eu saia de casa? Basta-lhe dizer uma palavra! 

 

— E a senhora ficaria? 

 

— Duvida! 

 

Com um movimento rápido, Lúcia correu a mão pelos cabelos, e o penteado desfez-se como por milagre, deixando cair a grinalda aos pés e rolar as tranças pelas espáduas. 

 

Ouviu-se rumor de passos na sala. 

 

— Não faça isto!... Aí está o Couto; ele vai ficar furioso e com razão! Pode dar algum escândalo! disse escarnecendo. 

 

A um sinal de sua senhora, a escrava de Lúcia abriu a porta ao Couto, que entrou sem me ver. 

 

— Ainda neste estado!... Se eu adivinhasse, tinha trazido o cabeleireiro para penteá-la. 

 

— Não se precisa aqui desta gente! murmurou Joaquina 

 

— Pois faz a tua obrigação, penteia tua senhora; e se andares depressa, terás uma boa molhadura. 

 

— Não vou ao Paraíso! disse Lúcia friamente. 

 

— Como, minha amiga! Que capricho é este! O baile deve estar brilhante. O que há de mais chibante na corte lá se achará esta noite. Faze idéia! Venderam-se todos os bilhetes! Tão cedo não teremos outro baile como este! Bem sabes que são raros no Rio de Janeiro. 

 

— Prefiro ficar em minha casa. O Sr. Silva toma chá comigo; estaremos sós e conversaremos mais à vontade! 

 

Foi então que o Sr. Couto me viu sentado no sofá; desta vez não me cumprimentou. Era demais. 

 

— Então é esse o motivo por que não vai ao baile! E foi para isso que me mandou chamar e me fez acompanhá-la esta manhã pela Rua do Ouvidor? O meio é engenhoso! Finge-se um arrufo, e põe-se o amor em leilão a quem mais der. 

 

— Uma infâmia de mais ou de menos para quem já perdeu a conta, vale a pena que se ocupem com ela? Não vou ao teatro, repito; e peço-lhe que me deixe tranqüila. 

 

O Couto fez um gesto soberbo, e uma saída teatral. 

 

(continua...)

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