Por José de Alencar (1862)
Enquanto acompanhava com os olhos a cortesã desprezível que se balançava lubricitante no seu novo carro, insultando com o luxo desmedido as senhoras honestas que passavam a pé, sabe de que me lembrei? Não foi da ceia em casa de Sá, nem do mês que acabava de passar; foi unicamente da suave aparição da Rua das Mangueiras no dia da minha chegada. São extravagâncias da memória. Quem conhece o fio misterioso que leva o pensamento através do labirinto do passado a uma lembrança remota?
— Rei morto, rei posto! disse-me o Cunha, que chegara à porta para ver Lúcia entrar no carro.
— Não sei a que se refere!
— Referia-me, Sr. Silva, continuou apontando para o carro que ainda aparecia, àquele trono de sedas e veludos que vagou esta manhã, e que uma hora depois já estava preenchido.
— Enganou-se, Sr. Cunha, respondi no mesmo tom de gracejo, fui apenas regente durante uma curta vacância.
— Pois não é isso o que se dizia.
— O que se dizia então? repliquei tornando-me sério, porque as palavras de Sá me acudiram ao pensamento.
— Dizia-se que o senhor mudara o sistema de governo daquele estado, e sucedera na qualidade de autocrata aos reis constitucionais, como eu tive a honra de sê-lo em certo tempo.
— O que entende por autocrata, Sr. Cunha?
— Perdão: vejo que toma ao sério um gracejo. Mudemos de assunto; não desejo ofendê-lo.
O Couto, que nos ouvia de princípio, interveio na conversa.
— A significação da palavra é bem clara, Sr. Silva, disse com o seu fátuo sorriso.
— Se o Sr. Couto quisesse fazer-me o favor de explicá-la Tenho a inteligência embotada.
O velho calou-se com visível embaraço. Continuei pesando as minhas palavras:
— O senhor quer talvez lembrar-me que os autocratas têm o costume de tiranizar os povos e vexá-los de imposições; razão por que os povos, quando os expulsam, se tornam excessivamente exigentes para com os truões que lhes sucedem. Não é isto? Diga-me por obséquio: não faz idéia da ansiedade com que procuro desde ontem um homem que tenha a coragem de repetir-mo em face!
— Ora, o senhor está brincando!
E o Sr. Couto fez-me uma profunda cortesia, e saiu empertigando-se mais que de costume.
Voltei-me para o Cunha.
— Bem dada lição! disse estendendo-me a mão.
— Decididamente não havia meio de brigar; o homem que eu procurava fugia-me como uma sombra.
XIII
À noite, quando dei por mim, subia as escadas de Lúcia. Se alguém me perguntasse o que ia fazer, ficaria bem embaraçado para responder e bem admirado da pergunta.
Tinha passado o resto do dia a atordoar-me, a fazer esforços inúteis para expelir da idéia uma lembrança que me afligia; à noite não pude resistir: senti uma necessidade invencível de ver aquela mulher, que eu já aborrecia.
Tinha-a eu amado para ter o direito de odiá-la.
Lúcia estava no toucador, acabando de vestir-se. A minha entrada lhe causou alguma surpresa. O acolhimento que me fez foi triste, mas doce e afável.
— Cometi uma indiscrição talvez, usando da liberdade que me deu outrora.
— Quem fez do presente um passado já tão remoto? Não fui eu! Mas fique certo que esta casa, hoje, como ontem, como amanhã, não tem para o senhor nem portas, nem paredes.
— Renuncio de bom grado a tanta honra; prefiro esperar no topo da escada, a correr o risco de uma surpresa ridícula para ambos.
Lúcia fitou-me por muito tempo, e chegou-se ao espelho para dar os últimos toques ao seu traje, que se compunha de um vestido escarlate com largos folhos de renda preta, bastante decotado para deixar ver as suas belas espáduas, de um filó alvo e transparente que flutuava-lhe pelo seio cingindo o colo, e de uma profusão de brilhantes magníficos capaz de tentar Eva, se ela tivesse resistido ao fruto proibido. Uma grinalda de espigas de trigo cingia-lhe a fronte e caía sobre os ombros com a basta madeixa de cabelos, misturando os louros cachos aos negros anéis que brincavam.
(continua...)
ALENCAR, José de. Lucíola. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2047 . Acesso em: 21 jan. 2026.