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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

—Bela inteligência, e estudo profundo desvirtuados pela ambição do ganho, e pelo embotamento da sensibilidade! O senhor desperta à meia-noite ao chamado anelante de um pobre, cuja esposa lhe dizem que agoniza, e responde friamente: "procurem outro médico: se a mulher agoniza, não vou lá"; e conchegando ao corpo os lençóis, dorme sem remorsos; o senhor faz pacto de aliança com as moléstias dos ricos que pagam, prolonga os tratamentos para multiplicar as visitas, e dobrar os lucros... o senhor é materialista e incrédulo, não admite alma, espírito ri da vida eterna, admira o acaso, e não reconhece Deus, criador do universo, criador do homem, Deus do castigo do mau que não se arrepende, Deus do perdão do pecador contrito!... O senhor é o homem da Inteligência, raio do céu, e da ciência Incompleta, vaidosa e corrompida da terra! O senhor é uma fonte de erros e de abominações, o senhor é perverso!...

O médico desatou em estrondosas gargalhadas, talvez para disfarçar a confusão em que sem dúvida ficara, e saiu do quarto, rindo-se cada vez mais estrepitosamente em seguimento de meu Irmão, de minha tia e de minha prima que fugiram espantados do testemunho tremendo da visão do mal.



XLVI

A luneta mágica tinha caído no meu colo e eu me abismei mais tristes reflexões.

Ainda um desengano, o ultimo! O doutor que fora tão bom, tão leal para comigo, que se me afigurara tão escrupuloso no tratamento da minha moléstia, que com tanto acerto combatera, o médico que usando da sua autoridade proibira que empregassem a menor violência para me arrancarem a minha luneta, esse homem que eu quisera que fosse uma exceção entre os homens, era como os outros e mais do que muitos outros, Indigno da minha estima pelo seu ruim caráter.

Os seus escrupulosos cuidados tinham tido por fim demorar a cura para ganhar mais dinheiro!

. . .

A defesa da minha luneta fora devida à incredulidade materialista, que o levava até o selvagem extremo de negar a existência do espírito que anima o homem, e de Deus sempiterno e onipotente!...

Isso porém não me espantou: afligiu-me, aflige-me; mas eu já estava preparado para o desengano cruel; a meu despeito, a despeito dos impulsos da gratidão, eu já desconfiava do médico.

O que me preocupa agora, o que me atormenta é a negridão do meu futuro, e a incerteza terrível dos tormentos que me esperam.

Que será de mim?... que vou eu sofrer?... por que provações vou passar?...



XLVII

Não posso mais ser feliz: é impossível.

Aborreço a todos, e todos me aborrecem.

Sou um contra todos, a sociedade toda está em guerra aberta contra mim. Não pode haver luta, vou sucumbir; cairei ao primeiro golpe.

O grito do primeiro garoto, a pedrada do primeiro menino malcriado será o anúncio do meu sacrifício

A voz geral brada que estou doido.

O médico que me tratou protesta que não estou doido; mas confessa que estou maníaco. A distinção não me salva.

Ficarei para sempre fechado neste quarto, ou, se aparecer na rua, gritarão mil vozes: "o doido! o doido!''

E arrastarão o doido para o hospício dos alienados...

E me arrancarão à força a minha luneta mágica, e hão de quebrá-la, destruir o poder da visão do mal!...

Oh! é horrível esta situação.



XLVIII

E de que me serve mais esta luneta fatal?...

Ela já me fez conhecer a sobras o mundo e os homens. Doravante nada mais pode ensinar-me que seja novo para mim.

Se ma arrancarem, se a quebrarem, ficarei em todo caso com a ciência que ela me deu; Que a quebrem pois! Pouco importa.

O que me apavora é a incerteza e o medo dos transes, a que tenho de sujeitar-me.

Se ao menos eu soubesse, se eu pudesse prever o que se projeta, se planeja, e se realizará contra mim amanhã... de hoje a três dias, daqui a um mês ou mais tarde...

Se eu pudesse acabar de uma vez com esta incerteza que é o pior dos martírios...

Oh! . . .

O armênio me proibiu fixar a luneta mágica por mais de treze minutos, sobre o mesmo objeto, porque além de treze minutos começaria a visão do futuro.

A visão do futuro! . . . é a que eu aspiro, o que ardentemente agora desejo.

É verdade que o armênio também me assegurou que a visão do futuro me era negada, e que a luneta magica se quebraria entre meus dedos, se eu a fixasse sobre o mesmo objeto por mais de treze minutos.

Mas quem sabe se o armênio procurou enganar-me?... Quem me diz que ele não inventou esse meio, que não empregou essa proibição dolosa para impedir que eu chegasse até a visão do futuro e dela me aproveitasse?...

A visão do futuro me daria poder igual ao do mais abalizado mágico; com ela eu seria igual ao armênio...

Diz-me o coração que o armênio quis enganar-me, e que eu posso ter a visão do futuro; e por ela igualá-lo na extensão do poder mágico.

Quero fazer a experiência. Que me pode acontecer de pior?... quebrar-se a luneta entre os meus dedos... ora! . . . e sem a visão do futuro, de que, para que mais me serve esta luneta?...

XLIX

O desejo impetuoso, irresistível da visão do futuro dominou-me absolutamente.

Ardi por efetuar a experiência.

Mas o futuro que eu principalmente e antes de tudo almejava conhecer, era o meu.

Como era possível que eu fitasse a minha luneta mágica em mim próprio, no meu próprio rosto?...

(continua...)

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