Por José de Alencar (1862)
— Ah! esquecia que uma mulher como eu não se pertence; é uma coisa pública, um carro da praça, que não pode recusar quem chega. Estes objetos, este luxo, que comprei muito caro também, porque me custaram vergonha e humilhação, nada disto é meu. Se quisesse dá-los, roubaria aos meus amantes presentes e futuros; aquele que os aceitasse seria meu cúmplice. Esqueci, que, para ter o direito de vender o meu corpo, perdi a liberdade de dá-lo a quem me aprouver! O mundo é lógico! Aplaudia-me se eu reduzisse à miséria a família de algum libertino; era justo que pateasse se eu tivesse a loucura de arruinar-me, e por um homem pobre! Enquanto abrir a mão para receber o salário, contando os meus beijos pelo número das notas do banco, ou medindo o fogo das minhas carícias pelo peso do ouro; enquanto ostentar a impudência da cortesã e fizer timbre da minha infâmia, um homem honesto pode rolar-se nos meus braços sem que a mais leve nódoa manche a sua honra; mas se pedir-lhe que me aceite, se lhe suplicar a esmola de um pouco de afeição, oh! então o meu contato será como a lepra para a sua dignidade e a sua reputação. Todo o homem honesto deve repelir-me!
Impetuosas como a torrente que borbota em cachões, ardentes como as bolhas d'água em plena ebulição, essas palavras se precipitavam dos lábios de Lúcia, em tropel e quase sem nexo. Às vezes de tão rápidas que vinham lhe tomavam a respiração, e parecia que a estrangulavam. Até que por fim um soluço cortou-lhe a voz; o seio ofegou como se o coração lhe quisesse saltar com o último grito de indignação de sua alma ofendida.
Que responder àquela lógica inflexível da paixão fazendo justiça aos prejuízos sociais? Nada. Calei-me, irritado contra os estímulos nobres que recebemos na infância e não nos permitem praticar cientemente um ato de que devamos corar.
— Tu me fazes arrepender da minha franqueza, Lúcia! disse passado um momento. Preferias que deixasse de ver-te?
— Não! Antes assim! O senhor quer!... Será feita a sua vontade! Terei amantes!
Saiu arrebatadamente e fechou-se no toucador.
Voltei, refletindo se o que tinha feito era realmente uma ação digna, ou uma refinada covardia; servilismo à inveja e malevolência social, que se decora tantas vezes com o pomposo nome de opinião pública.
Às três horas da tarde passando pela Rua do Ouvidor vi Lúcia na casa do Desmarais, cercada por uma grande roda, na qual eu distingui logo o Sr. Couto e o Cunha.
Lúcia estava rutilante de beleza; a sua formosura tinha nesse momento uma ardentia fosforescente que eu atribuí à irritação nervosa da manhã. O orgulho e o desprezo vertiam-Ihe de todos os poros, nos olhos, nos lábios, nas faces e no porte desenvolto. Ela flutuava numa atmosfera maléfica para o coração, que, entrando naquela zona abrasada, sentia-se asfixiar. A roda elegante festejava o astro que surgia, depois do seu eclipse passageiro, mais que nunca brilhante.
Atirando a réplica viva e incisiva a todos os adoradores que a cortejavam; escarnecendo da fineza, e fazendo ressaltar a zombaria contra o que a lançara, Lúcia, com a mesma liberdade que teria em sua casa, continuava a escolher na grande exposição de objetos de fantasia que cobria os balcões.
Que sentimento me obrigava a parar na loja para seguir com os olhos essa mulher, à posse exclusiva da qual eu acabava de renunciar? Que motivo estranho, vendo-a agora cercada de apaixonados, me fazia sofrer, a mim que não havia duas horas tinha assistido friamente à explosão violenta da sua cólera?
Lúcia me viu, porém não me deu atenção. Dirigiu-se ao Couto; trocando com ele algumas palavras em segredo, voltou para o caixeiro e declarou que comprava os objetos apartados, cujo preço lhe seria enviado no dia seguinte.
Vendo gesto significativo do Couto ao dono da loja, como eu, todas as pessoas presentes ficaram persuadidas que da bolsa do velho saía o dinheiro que ela acabava de atirar a mancheias de uma a outra ponta da Rua do Ouvidor.
Felizmente para mim, que já não me podia conter, o suplício terminou. Ela retirava-se. Passando junto de mim cortejou-me, e disse em vez baixa:
— Está satisfeito?
O sorriso em que ela envolveu estas palavras, caiu, se me posso assim exprimir, como a dobra de uma mortalha; tal foi a súbita lividez que lhe cobriu o rosto, e o desanimo que abateu o seu corpo.
O Couto apressou-se a oferecer-lhe a mão para ajudá-la a entrar no carro.
— Até logo! disse-lhe ela bem alto.
Podia-me restar a menor dúvida? Lúcia era amante do Couto.
(continua...)
ALENCAR, José de. Lucíola. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2047 . Acesso em: 21 jan. 2026.