Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
O mano Américo, a tia Domingas, e a prima Anica mostravam-se contrafeitos pelo vexame, e no mais completo e ridículo desapontamento.
Como é vil, ruim, baixa e indigna a humanidade!!!
XLIII
Este médico será uma exceção entre os homens?... será bom e honesto?... a sua boca pronunciou palavras justas e leais; o seu proceder foi o de um médico consciencioso; enganou-se com o meu fingido sono ou por ligeireza de observação, ou por inabilidade; mas que será este homem no fundo do coração?... evidentemente ele me defendeu; pareceu-me bom e honesto; eu porém não me fio mais em aparências.
Hei de com a luneta mágica estudar o meu doutor, quando tiver ocasião oportuna.
XLIV
Passaram pouco mais ou menos assim cinco dias.
Eu me sentia perfeitamente restabelecido; mas o médico teimava em administrar-me colheres de uma preparação que ajudada de severa dieta debilitava-me cruelmente.
Este tratamento martirizava-me; no quinto dia obtive que se suspendessem as malditas colheres de remédio que me estavam prostrando; mas ainda me ficou a dieta apenas ligeiramente modificada no sentido reparador.
Apesar disso o médico me convinha: achei nele o meu protetor, e, o que é mais, o defensor dos meus direitos de posse absoluta da luneta mágica. Ouvi-o por mais de uma vez lançar o ridículo sobre os meus três ferozes parentes que teimavam em sustentar a conveniência de despojar-me do meu tesouro.
Estimei, amei, adorei o excelente doutor, o único homem, que eu tinha encontrado com bastante amor à verdade para sustentar que eu não estava doido, e que não tinha receio da minha luneta, cujo poder, se eu nisso acreditava, era, dizia ele, apenas inocente mania facilmente curável.
Esta última apreciação, que era um erro, talvez notável contradição de médico, pois se havia em mim tal manta, era fácil que ela me levasse à perda completa do juízo, essa contradição, que bem podia ser um recurso de consolação empregado pelo doutor, por fim de contas me era útil, e tão agradecido me reconheci que deliberei não fitar a minha luneta no doutor.
Eu devia-lhe tanto, que preferi viver enganado com ele a expor-me a descobrir sentimentos repugnantes nesse homem.
XLV
Em todo este tempo o meu extremoso irmão que com tristes lamentações insistia em considerar-me doido, conservara sempre no meu quarto um ou dois escravos de sentinela.
No sétimo dia de tratamento o doutor logo que entrou acompanhado dos meus três adoráveis e estremecidos parentes, despediu as malditas sentinelas, declarou que não eram necessárias e que pelo contrário deveriam ter sido dispensadas desde o segundo dia.
Ficamos no quarto, o doutor, o mano Américo, a tia Domingas, a prima Anica e eu.
—Ora pois! disse o médico, dirigindo-se a mim, o senhor esta bom, e hoje venho despedir-me do seu tratamento.
Desfiz-me em agradecimentos, que me saíram do coração.
—Muito bem, tornou ele; quero por em prova imediata a sua gratidão.
—Que quer de mim? mande, doutor.
—Todos falam da sua luneta mágica; o senhor pretende que por meio dela pode ler no livro intimo dos sentimentos dos homens: é isto verdade?
—f: verdade, doutor.
—Otimamente; eu duvido de tudo isso e quero que dissipe as minhas dúvidas: dá-me palavra de honra que há de dizer em alta voz tudo quanto ler e encontrar nos arcanos da minha alma, fixando em mim sua luneta?
—Doutor!
—Eu o exijo.
—Oh! não!... eu lhe devo muito...
—Eu o exijo. Dá-me palavra de honra?...
—Dou-lha; é a pesar meu; mas dou-lha.
—Fite pois em mim a sua luneta: ela! venha a experiência.
Com ímpetos de curiosidade, talvez de insensata saudade da visão do mal, tremendo porém de grato medo, fixei a luneta mágica no rosto do médico, que imóvel e inabalável se deixou observar. Vi e fui dizendo o que via.
—Cabelos castanhos e crespos, fronte soberba, olhos pequenos, mas brilhantes e incisivos no olhar, nariz aquilino, faces pálidas, lábios grossos e eróticos, pouca barba, mãos finas e delicadas, corpo bem feito, e... oh!...
—Que é isso?...
—A visão do mal!... exclamei.
—Venha ela!
—Não! não! não!
—Deu-me a sua palavra de honra: cumpra-a!
—Não!
—Eu o exijo.
Obedeci e falei tremendo e a pesar meu.
(continua...)