Por José de Alencar (1862)
Ela recebeu-me com brandura. Tinha os olhos rubros e pisados de lágrimas; apertando minha mão, beijou-a. Que pretendia ela exprimir com esse movimento! Seria a imagem viva da humilde fidelidade do cão, afagando a mão que o acaba de castigar?
Estivemos muito tempo sem trocar palavra.
Enfim Lúcia fez um esforço, sorriu como se nada houvesse passado, e veio sentar-se nos meus joelhos, acariciando-me com a ternura e a graciosa volubilidade que ela tinha quando o júbilo lhe transbordava d'alma. Aproveitei o momento para alijar o peso que desde a véspera me acabrunhava.
— Sabes que eu não sou rico, Lúcia!
Seu olhar luminoso penetrou-me até os seios d’alma para arrancar o pensamento que inspirava essas palavras; respondeu com um pálido sorriso:
— Pensava ao contrário que era muito rico!
Ela mentia!
— Pois pensaste mal. Sou pobre, e não posso sustentar o luxo de uma mulher como tu.
— Acha pouco o que me tem dado!
— O que dei não vale a pena de ser lembrado. Falemos do que te devia dar, e não pude, porque não tinha. Neste mês que se passou, a tua vida não foi tão brilhante como era antes.
— Porque eu não quis, e não porque me faltasse coisa alguma. Nunca me achei tão rica como agora.
— Não tens sido vista nos teatros e passeios; já não tens um carro; não és enfim a mulher do tom que eu ainda conheci!
— Aborreci-me de tudo isto!
— Não te podes aborrecer sem que o mundo repare!
— Como! Não sou senhora de viver a meu modo, desde que com isso não faço mal a ninguém? Se apareço, é um escândalo; se fico no meu canto, ainda se ocupam comigo.
— Que queres! Há certas vidas que não se pertencem, mas à sociedade onde existem. Tu és uma celebridade pela beleza, como outras o são pelo talento e pela posição. O público, em troca do favor e admiração de que cerca os seus ídolos, pede-lhes conta de todas as suas ações. Quer saber por que agora andas tão retirada; e não acha senão um motivo.
— Qual? perguntou Lúcia com ansiedade.
— Supõe que eu te sacrifico aos meus ciúmes; e não me perdoa, porque não sou bastante rico para ter semelhantes caprichos.
— É isso que o incomoda! Meu Deus! Fique descansado: terei carro, aparecerei como dantes! Hoje mesmo!... Verá! Não sabe quanto me custa esse sacrifício; mas um só beijo me paga com usura!
Estalou o lábio entre os meus.
— Precisava dele para me dar coragem; agora sinto me forte.
— Aonde vais? perguntei retendo-a.
— Vou mandar a cocheira ver o meu carro; escrever à Gudin que me faça uma dúzia de vestidos os mais ricos; dizer ao caixeiro do Wallerstein que me traga para escolher o que ele tem de melhor em modas chegadas ultimamente! É verdade, esquecia-me de mandar tomar uma assinatura no teatro lírico, e encomendar uma nova parelha de cavalos. A minha caleça já está usada; preciso trocá-la por uma vitória, e renovar o fardamento dos criados. Até à noite tenho tempo para tudo. O Jacinto se incumbirá de uma parte das comissões.
Olhei para Lúcia; ou está louca, ou zomba de mim, foi a minha primeira idéia, ouvindo a sem-cerimônia e o desplante com que ela decretava um orçamento de despesa que faria estremecer o mais pródigo financeiro.
— Espera, Lúcia!
— Ainda não é bastante? Que hei de fazer mais? disse com um gesto de cômico desespero. Ah! Mandarei arranjar de novo a minha casa, e darei um baile! Que diz!
— Farás o que for do teu gosto!
— Do meu!...
— Goza da tua mocidade, é justo: tu podes e deves fazer; mas como só eu venho à tua casa e todo o mundo sabe que não sou milionário, compreendes que, se isto continuasse, suspeitariam, diriam mesmo, se já não disseram, que vivo à tua custa!
Lúcia ficou lívida; tinha compreendido.
— Então não posso dar-me a quem for de minha vontade?
— Quem diz isso? Eu é que não te posso aceitar por semelhante preço. À custa da honra... é muito caro, Lúcia!
(continua...)
ALENCAR, José de. Lucíola. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2047 . Acesso em: 21 jan. 2026.