Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
—Ou é possível ou impossível curar-lhe a manta: se é impossível, para que atormentar seu irmão inutilmente? Se é possível, nós o curaremos da mania mais tarde...
—Mas...
—Agora eu o vejo escapando apenas a um ataque cerebral que ameaçou tomar proporções terríveis, e o ressentimento de qualquer violência que ele sofresse, seria capaz de levá-lo à sepultura. —E a influência maléfica da luneta?...
—Proíbo que contrariem e que desgostem de qualquer modo o nosso doente.
—Então ele está realmente doido, senhor doutor? perguntou Anica.
—Cuidado, minha senhora; seu primo foi multo seriamente ameaçado de uma congestão cerebral; acudimo-lo a tempo; conseguimos prevenir um caso talvez desesperado, mas qualquer imprudência pode ainda ser fatal.
—A minha pergunta...
—Foi menos prudente; se seu primo a ouvisse receberia cruel impressão. Felizmente ele dorme.
XLII
Senti verdadeira dor de consciência por estar com o meu fingido sono enganando ao homem que tão decidido me defendera.
Abri os olhos; fiz de conta que despertava.
—Como vamos? perguntou-me o doutor.
— Acho-me bom; mas fraquíssimo.
—Fui eu que o enfraqueci: tirei-lhe sangue, como nenhum outro médico se lembra mais de tirar; agora a moda é condenar a lanceta; eu porém adoro ainda a minha...
—Obrigado, doutor. Se me quiser estender sua mão, eu a beijarei... duas vezes.
—Tão bom me acha?
—Pela minha gratidão acho-o ótimo.
—Logo nem todos os homens são maus.
Compreendi a alusão e guardei silêncio.
—Daqui a alguns dias resolveremos esta importante questão; agora não lhe permito conversar nem mesmo com os seus parentes.
—Pode ficar descansado nesse ponto, doutor; juro-lhe que não lhes darei nem palavra.
—Que ingrato! murmurou Anica que me apertava uma das mãos.
—Além disso quero que esteja absoluta, perfeitamente tranqüilo, e sem a mais leve apreensão triste ou temerosa no ânimo.
—Como?
—Que é da sua luneta?
—Tenho-a escondida, doutor.
—Escondida por que?
—Não me pergunte o que sabe: a minha luneta é o único tesouro que possuo no mundo ou na vida, e querem roubar-ma!!!
—Não é preciso exaltar-se tanto; confie mais em seus parentes que o amam, e que são os primeiros a garantir-lhe a posse do seu pretendido ou verdadeiro tesouro.
—Ontem à noite empregaram a força, lutaram, magoaram-me para arrancar-me a luneta...
—Engana-se: ontem à noite o senhor teve ardente febre e delírio... não se passou, o que acaba de dizer; pode usar de sua luneta sem receio algum; tranqüilize-se, serene o seu espírito os seus parentes estão aqui, e em prova de cuidado e de amor estão prontos, embora não seja isso necessário, a dar-lhe todas as seguranças...
—Sim, mano Simplício, disse Américo com acentuação enternecida; podes usar da tua luneta com a mais plena liberdade, que eu serei o primeiro a fazer respeitar por todos os meios.
—Benza-te Deus, menino! Que mal nos faz a tua luneta? exclamou a tia Domingas.
—Primo, eu prefereria morrer a causar-lhe o menor desgosto, assobiou suavemente Anica com a sua voz de música afinada.
—Já ouviu? perguntou-me o doutor.
Eu estava dentro de mim revoltado contra aquela hipocrisia refinada dos meus três parentes inimigos; por eles media, aquilatava ainda uma vez a perversão e a malvadeza da humanidade, e em meu assanhado ressentimento desejei castigá-los, ostentando a minha desconfiança.
O médico proporcionou-me a oportunidade do castigo.
—Que é da sua luneta?... perguntou-me ele outra vez, notando sem duvida a minha reflexão.
—Receio... desconfio sempre, respondi com azedume franco.
—Apresente-a; sirva-se dela; conte com a proteção de seus parentes.
—E quem é deles o fiador? perguntei acerbo.
Percebi um movimento, tríplice movimento de contrariedade e de viva impressão de ofensa; libei a minha vingança.
—Injusto irmão! disse Américo.
—Que pecado contra a natureza! bradou a tia Domingas, acrescentando em voz baixa: ave Maria, Deus te perdoe!
—Meu primo! como você é ingrato! balbuciou a prima Anica. O doutor desatara a rir.
Os médicos são os homens que mais riem ou os homens que nunca riem, porque são os homens que mais e melhor estudam a humanidade por obrigação do ofício.
Eu quis provar que me não deixara comover, e aplaudindo em minha consciência a eloqüente risada do médico, firmei a sentença da minha bem fundada desconfiança, repetindo a pergunta:
—E quem é deles 0 fiador? Quem se atreve a ser o fiador dos meus três parentes?...
—Eu, disse o doutor.
Sem mais hesitar desatei a luneta, e apresentando-a, fixei-a ousadamente, observando em rápido volver as quatro pessoas que estavam diante de mim.
O médico ria-se, com um sarcasmo a rir desenvoltamente.
(continua...)