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#Crônicas#Literatura Brasileira

História de quinze dias

Por Machado de Assis (1900)

Alegarei que eu, geralmente, sou pouco inclinado a prodígios. Foram convidar um lacedemônio a ir ouvir um homem que imitava com a boca o canto do rouxinol. "Eu já ouvi o rouxinol", respondeu ele. A mim, quando me falaram de um homem que tocava flauta com as próprias mãos, respondi: "Eu já ouvi o Calado". 

Presunção de fluminense que quer ser lacedemônio. 

Não repetirei o dito em relação ao homem que toca rabeca com os pés; seria cair numa repetição de mau gosto. 

Não direi que já ouvi o Gravenstein ou o Muniz Barreto, porque além de tocar, o dito homem penteia-se, acende um charuto, joga cartas, desarrolha uma garrafa, uma infinidade de coisas que não fazem os meus nem os pés do leitor. 

Há outro que engole uma espada, e uma dama que, à força de saltos mortais, chegará à imortalidade. 

VI 

Um correspondente do Piauí escreve para esta Corte as seguintes linhas: "Esteve por alguns dias na chefatura o juiz de direito da capital, Dr. Jesuíno Martins, que etc." Tenho lido outras vezes que a chefança perdeu um honrado magistrado; não poucas que mal anda o chefado nas mãos de Fulano; outras enfim que a chefação vai caminhando ao abismo. 

Será preciso observar a todos os cavalheiros que cometem semelhante descuido, que não há chefança, nem chefado, nem chefação, nem chefatura, mas tão-somente chefia? 

[2]

[1 agosto] 

HOJE POSSO espeitorar meia dúzia de bernardices sem que o leitor dê por elas. 

A razão não é outra senão a de ser o leitor um homem que se respeita, ama o belo, possui costumes elegantes: conseguintemente, não tem orelhas para crônicas, nem outras cousas ínfimas. 

Suas orelhas andam de molho, reservam-se para as grandes e belas vozes que estão prestes a chegar do Rio da Prata. 

Antes de ir mais longe, convém advertir que o fato de nos virem as celebridades líricas do Rio da Prata é um fenômeno que, em 1850, seria puramente milagre; mas que hoje, mediante os progressos do dia, parece a cousa mais natural do mundo. 

Há incrédulos, é verdade; há ombros que se levantam, espíritos que dão seus muxoxos de dúvida. Mas qual foi a verdade nova que ainda não encontrou resistências formais? 

Colombo andou mendigando uma caravela para descobrir este continente; Galileu teve de confessar que a única bola que girava era a sua. Estes dois exemplos ilustres devem servir de algum lenitivo aos cantores platenses. 

II 

Demais os incrédulos se são duros, são em ínfimo número; número verdadeiramente ridículo. Porquanto, ainda, os cantores não deram amostra, já não digo de uma nota, mas somente de um espirro ou de um aperto de mão, e já os bilhetes estão todos tomados, a preços de primíssimo cartelo. 

Donde os filósofos podem concluir com segurança que as vozes não são a mesma coisa que os nabos. Credo, quia absurdum, era a máxima de Santo Agostinho. Credo, quia carissimum, é a do verdadeiro dilettanti. 

Ao preço elevado dos bilhetes corresponde os dos vencimentos dos cantores. Só o tenor recebe por mês oito contos e oitocentos mil-réis! Não sei que haja na crítica moderna melhor definição de um tenor do que esta dos oito contos, a não ser outra de dez ou quinze. 

Que me importa agora ouvir as explicações técnicas dos críticos para saber se o tenor tem grande voz e profundo estudo? Já sei, já o sabemos todos; ele tem uma voz de oito contos e oitocentos; devo aplaudi-lo com ambas as luvas, até arrebentá-las. 

Vejam a superioridade da música sobre a política. Cavour fez a Itália—um pau por um olho, e não sonhou nunca receber ordenado tamanho. Mas um jovem de olho azul e bigode louro, tendo a boa fortuna de engolir um canário ou outra ave equivalente, só por esse motivo, c por outros que seria longo desfiar, mete Cavour num chinelo. Cavour morreu talvez com pena de não ter sido barítono. 

Não sei quanto vence o soprano; mas deve ser grosso cabedal, em vista do tenor, e porque também é célebre.

Imaginemos outro tanto. 

Ora, expirou há pouco uma mulher, que me hão de conceber tinha um gênio maior que o do soprano referido, mulher que ocupa um dos mais altos lugares entre os prosadores de seu século. Madame Sand nunca venceu tanto por mês. Rendeu-lhe menos Indiana ou Mauprat do que rendem ao soprano de que trato meia dúzia de sustenidos bem sustenidos. 

Oh! se tu tens algum filho, leitor amigo, não o faças político, nem literato, nem estatuário, nem pintor, nem arquiteto! Pode ter algum pouco de glória, e essa mesma pouca; muita que seja, nem só de glória vive o homem. Cantor, isso sim, isso dá muitos mil cruzados, dá admiração pública, dá retratos nas lojas; às vezes chega a dar aventuras romanescas. 

III 

Por fortuna de Alexandre Herculano, esta notícia lírica só invadiu a Corte depois de anunciado o seu azeite. Se o azeite se demora uma semana, ninguém fazia caso dele; ninguém lhe reparava na notícia, nem nos méritos. 

(continua...)

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