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#Contos#Literatura Brasileira

História de uma lágrima

Por Machado de Assis (1867)

A moça abaixou os olhos. Estendi-lhe a mão, sobre a qual pôs ela a sua. Era noite. Tamanha felicidade abafava-me: eu precisava de ar; e além disso tinha vontade de ver se, saindo daquela casa, desfazia-se o que me parecia sonho, ou se realmente era uma realidade bem-aventurada. 

Preparou-se o casamento, que devia efetuar-se dentro de um mês. Valadares disse-me que eu entraria como sócio na casa, sendo esse o começo da fortuna que meu pai exigia que eu próprio alcançasse. 

Elisa recebeu contente aquela proposta? amava-me realmente? Eu acreditei que sim. Mas a verdade é que a moça não diminuiu para mim o tratamento afetuoso que até então

me dava; como não era alegre, ninguém reparava em que nada se lhe alterasse pela proximidade da união. 

A diferença que eu notei então na casa foi que Luís, o poeta que lá ia, de alegre que era tornara-se triste e distraído. A mudança foi a ponto que eu compreendi que ele nutria por Elisa algum sentimento de amor. Provavelmente preparava-se para ser seu marido. Quis a sorte que as circunstâncias transtornassem esses planos. A culpa não era minha, pensava eu; é natural amá-la, basta conhecê-la. 

Efetuou-se o casamento em novembro. Foi para mim um dia de felicidade extrema, com uma única sombra, é que Elisa pareceu triste logo desde manhã, e indagando eu a causa disse que se achava um pouco doente. 

— Adiamos o casamento... 

— Não, há de ser já. 

— Mas se está enferma? 

— Uma dor de cabeça; nada é. 

A cerimônia foi celebrada debaixo desta impressão. 

Assistiram a ela todos os amigos da casa, menos o poeta, que dois dias antes partira para o interior da província, onde ia, disse ele, ver um parente. 

Quando eu me vi casado, senti tamanha satisfação que tive medo de mim. Agradeci mentalmente a meu pai o haver-me mandado para o Rio, onde aquela ventura me esperava. 

Não lhe direi como correram os primeiros dias do meu casamento; foi o que costuma a ser, uma lua-de-mel. Elisa nada mudou do que era; à sua índole atribuí eu a circunstância especial de que, ao passo que eu me sentia ardoroso e cheio daquela glória de possuí-la, ela mostrava-se afetuosa, mas reservada, obediente e passiva. 

— É natural nela; foi assim educada, pensava eu. 

E não havia cuidado nem atenção de que eu não a rodeasse para que ela fosse feliz. A moça agradecia-me com um sorriso. Para mim aquele sorriso era uma luz do céu. No fim de algum tempo, apareceu outra vez na corte o poeta, que vinha, dizia, de fechar os olhos ao parente, e trazia luto fechado. Ficava-lhe bem o luto, e não somente o luto das roupas, mas o do semblante que estava fechado e triste como uma campa que esconde um morto. 

O poeta foi à nossa casa; mas Elisa não lhe falou, por estar incomodada, segundo mandou dizer. O moço voltou lá mais duas vezes sem que pudesse ver minha mulher. Não voltou lá mais. 

Pouco depois soube que partira para os Estados Unidos. Ia buscar, disse ele ao major que freqüentava a casa de Valadares, um grande centro populoso que lhe servisse de grande deserto para o coração. 

Desconfiei, como era fácil, que o amor de Luís não se extinguira, e que, preferindo o suicídio moral à desonra, buscava assim o esquecimento num exílio voluntário. Passaram-se três anos quase, e por esse tempo adoeceu Elisa. Foi ao principio moléstia de pouca monta, mas agravou-se com os tempos, e um dia chegou em que o médico me disse que a infeliz estava tísica. 

Podes acaso calcular a minha dor? 

— Salve-a, doutor, exclamei eu. 

— Sim, hei de salvá-la. 

Com efeito, o médico envidou todos os esforços; ocultou a moléstia à enferma, por prudência; mas Elisa tinha a convicção da gravidade do mal. Emagrecia e empalidecia a olhos vistos. 

Abandonei os interesses da casa a meu sogro, que, por sua parte, entregou-a aos cuidados do guarda-livros, e ambos nos ocupamos exclusivamente em cuidar da pobre enferma. 

Mas o mal era fatal. A ciência nem o amor nada podiam contra ele. Elisa definhava; não longe estava a morte. Ao menos salvávamos a consciência de ter feito tudo. Eu poucas vezes saía, e isso mesmo pouco tempo me demorava fora de casa. Numa dessas vezes, em que eu voltava, não achei Elisa na sala de visitas. A infeliz já poucas vezes se levantava; cuidei que estivesse de cama. Fui para lá; não estava. Disseram-me que tinha entrado no seu gabinete de trabalho. 

Dirigi-me para lá pé ante pé. 

Elisa estava de costas, sentada numa poltrona com um papel na mão; aproximei-me devagarinho, queria causar-lhe uma agradável surpresa dando-lhe um beijo. Mas, no momento em que eu aproximava-me dela, vi que o papel que ela lia continha uns versos, e parava para os ler, quando vi cair sobre o papel uma lágrima. Que era aquilo? De um lance compreendi tudo; não pude reter um pequeno grito, que ela ouviu e que a assustou. 

Vendo-me pálido e de pé diante dela, a moça levantou-se a custo e curvando a cabeça murmurou: 

— Perdão! 

(continua...)

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