Por Machado de Assis (1858)
Comigo, minha bela!
ROSINHA
Queres servir-me em uma coisa?
BENTO
(severo)
Eu cá só sirvo ao Sr. Durval, e é na boléia!
ROSINHA
Pois hás de me servir. Não és então um rapaz como os outros boleeiros, amável e serviçal...
BENTO
Vá feito... não deixo de ser amável; é mesmo o meu capítulo de predileção.
ROSINHA
Pois escuta. Vais fazer um papel, um bonito papel.
BENTO
Não entendo desse fabrico. Se quiser algumas lições sobre a maneira de dar uma volta, sobre o governo das rédeas em um trote largo, ou coisa cá do meu ofício, pronto me encontra.
ROSINHA
(que tem ido buscar o ramalhete no jarro)
Olha cá: sabes o que é isto?
BENTO
São flores.
ROSINHA
É o ramalhete diário de um fidalgo espanhol que viaja incógnito.
BENTO
Ah! (toma o ramalhete)
ROSINHA
(indo a uma gaveta buscar um papel)
O Sr. Durval conhece a tua letra?
BENTO
Conhece apenas uma. Eu tenho diversos modos de escrever.
ROSINHA
Pois bem; copia isto. (dá-lhe o papel) Com letra que ele não conheça.
BENTO
Mas o que é isto?
ROSINHA
Ora, que te importa? És uma Simples máquina. Sabes tu o que vais fazer quando teu amo te indica urna direção ao carro? Estamos aqui no mesmo caso.
BENTO
Fala como um livro! Aqui vai. (escreve)
ROSINHA
Que amontoado de garatujas!...
BENTO
Cheira a diplomata. Devo assinar?
ROSINHA
Que se não entenda.
BENTO
Como um perfeito fidalgo. (escreve)
ROSINHA
Subscritora para mim. À Sra. Rosinha. (Bento escreve) Põe agora este bilhete nesse e leva. Voltarás a propósito. Tens também muitas vozes?
BENTO
Vario de fala, como de letra.
ROSINHA
Imitarás o sotaque espanhol?
BENTO
Como quem bebe um copo d'água!
ROSINHA
Silêncio! Ali está o Sr. Durval.
Cena V
ROSINHA, BENTO, DURVAL
DURVAL
(a Bento)
Trouxeste a caixa, palerma?
BENTO
(escondendo atrás das costas o ramalhete)
Sim, senhor.
DURVAL
Traz a carruagem para o portão.
BENTO
Sim senhor. (Durval vai vestir o sobretudo, mirando-se ao espelho) O jornal? onde pus eu o jornal? (sentindo-no no bolso) Ah!...
ROSINHA
(baixo a Bento)
Não passes na sala de espera. (Bento sai)
Cena VI
DURVAL, ROSINHA
DURVAL
Adeus, Rosinha, é preciso que eu me retire.
ROSINHA
(à parte)
Pois não!
DURVAL
Dá essa caixa a tua ama.
ROSINHA
Vai sempre ao baile com ela?
DURVAL
Ao baile? Então abriste a caixa?
ROSINHA
Não vale a pena falar nisso. Já sei, já sei que foi recebido de braços abertos.
DURVAL
Exatamente. Era a ovelha que voltava ao aprisco depois de dois anos de apartamento.
ROSINHA
Já vê que andar longe não é mau. A volta é sempre um triunfo. Use, abuse mesmo da receita. Mas então sempre vai ao baile?
DURVAL
Nora sei de positivo. As mulheres são como os logogrifos. O espírito se perde no meio daquelas combinações...
ROSINHA
Fastidiosas, seja franco.
DURVAL
É um aleive: não é esse o meu pensamento. Contudo devo, parece-me dever crer, que ela irá. Como me alegra, e me entusiasma esta preferência que me dá a bela Sofia!
ROSINHA
Preferência? Há engano: preferir supõe escolha, supõe concorrência...
DURVAL
E então?
ROSINHA
E então, se ela vai ao baile é unicamente pelos seus bonitos olhos, se não fora V. S., ela não ia.
DURVAL
Como é isso?
ROSINHA
(indo ao espelho)
Mire-se neste espelho.
DURVAL
Aqui me tens.
ROSINHA
O que vê nele?
DURVAL
Boa pergunta! Vejo-me a num próprio.
ROSINHA
(continua...)
ASSIS, Machado de. Hoje avental, amanhã luva. In: ASSIS, Machado de. Teatro de Machado de Assis. São Paulo: Martins Fontes, 2003.