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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Leonina — E qual é? Já agora dê o seu recado até o fim.

Anastácio — É que o miserável pintor, filho do miserabilíssimo mestre marceneiro, é...é...tenho vergonha de acabar a frase.

Leonina — Nada de reticências; eu quero que diga tudo.

Anastácio — Pois então lá vai, minha fidalga: é que o miserável pintor, filho do miserabilíssimo mestre marceneiro, é...tenha paciência, é, sem mais nem menos, primo-irmão de Vossa Excelência.

Leonina — Oh! eu não posso suportar essa ironia insultuosa! (Chamando) Meu pai!...meu pai!... minha mãe!...

Anastácio — Manchei-lhe o sangue azul com as tintas do meu pintor!... E como ficou irritada!... Menina, façamos as pazes! (Procurando-a) Venha um abraço em sinal de reconciliação!...

Leonina (Fugindo) — Meu pai!...minha mãe!...

Anastácio (Seguindo-a) — Há de dar-me um abraço, quer queira, quer não.

Leonina (Fugindo) — Meu pai! Acuda-me!...

Anastácio (Seguindo-a) — Pois agora há de ser um abraço e um beijo...



CENA IV

Anastácio, Leonina, Maurício e Hortênsia.

Maurício — Leonina... (Vendo Anastácio) Oh!...mano Anastácio!...(Abraça-o) Hortênsia — Meu mano! (Abraça-o por sua vez)

Anastácio — Sim! Ele mesmo!...depois de dezoito anos de ausência!...ele mesmo!

Maurício — Que prazer! Que felicidade!...

Leonina — Pois é meu tio?...é o meu padrinho?...

Hortênsia — Sim, minha filha, é o teu padrinho.

Anastácio (Chorando) — Conheceram-me logo...amam-me ainda...não se esqueceram do velho rabugento...mas...parece-me que estou chorando...isto é uma vergonha na minha idade... Maurício, mano, outro abraço para esconder estas duas goteiras de casa velha!...(Abraçam-se) Leonina — E eu então, meu padrinho?...

Anastácio — Ah! Já, minha cabecinha de vento?...não te disse que havias de darme um abraço e um beijo? (Abraça-a e beija-a na fronte) Pois toma dois e três de cada espécie, e estes podes receber e pagar com juros sem dar satisfação à língua do mundo.

Maurício — Quando chegaste, Anastácio?

Anastácio — Agora mesmo; apeei-me à porta de tua casa.

Hortênsia — Mas por que gritavas com tanto desespero, Leonina?

Leonina — Ora...eu não conhecia meu padrinho, vendo-o correr atrás de mim para me abraçar...(Sentam-se)

Anastácio — Não foi isso, mentirosa! Deves dizer sempre toda a verdade a teus pais: mana, fui eu que, conforme o meu costume, ralhei como um frade velho. Leonina, tenho mais vinte anos do que teu pai, e portanto acho-me com direito de avô. Meus pais desejaram que eu fosse padre, e deram-me uma educação severa e estudos variados e sérios; circunstâncias que agora não vêm ao caso, afastaram-me das ordens sacras; fiquei, porém, com as menores, e , sem ser padre gosto de pregar os meus sermões; dispõe-te pois a aturar-me, que tens muito que ouvir e eu muito que ralhar.

Leonina (À parte) — Pior está essa! Mas o meu recurso é simples: para um velho que ralha, uma moça que ri.

Maurício — Sim, ralhe muito com ela e para isso não nos deixe mais nunca.

Anastácio — Mais nunca?...Havia de ser bonito! E quem me tomaria conta das fazendas em Minas?...cheguei há pouco e sinto que já estou pelos cabelos: a vida da cidade é só para gente vadia.

Hortênsia — Um homem solteiro, quando chega à sua idade e é bastante rico, tem o direito de descansar e gozar.

Anastácio — Não; o homem ocioso é sempre um peso para a sociedade. O trabalho é uma lei de Deus que se deve cumprir até a morte; sou rico, nunca porém serei vadio, nem perdulário.(Olhando). Mas pelo que vejo, tu andas pelas grimpas, Maurício? Aposto que tens os teus vinte contos de renda anual?.. não...ah! já sei, tens tirado a sorte grande cinco ou seis vezes.

Leonina — Qual! todos os bilhetes, que papai compra, saem brancos.

Anastácio — Então, acumulas alguns sete empregos para receber os vencimentos de todos eles, sem cumprir as obrigações de nenhum: acertei! A nação é quem paga o pato, e, coitadinha! Não se queixa, porque já está acostumada. A quanto chegam os teus ordenados?

Maurício — Tenho só um, Anastácio, e esse e mais achegos dão-me por ano cerca de cinco contos de réis.

Anastácio — Ao menos esta casa é propriedade tua...

Maurício — Infelizmente não; e as casas estão por um preço fabuloso: pago de aluguel por esta dois contos de réis.

(continua...)

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