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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

— Então! Não te ris dessa estúpida calúnia?... Tomas isto ao sério? 

 

— Dize-me o nome de um só dos infames que se ocupam com a minha vida. O teu dever, já que assim o chamaste, o exige, e eu te peço! 

 

— O nome?... É o mundo, a gente, a sociedade! Vai tomar-lhe satisfações. 

 

— Mas tu ouviste de um homem? 

 

— Que ouviu de outro e outro. Procura numa árvore a folha que gerou e nutriu a vespa que te morde? 

Sá tinha razão. Senti a impotência do homem contra a calúnia impalpável que esvoaça e zune e ferroa como a vespa, e escapa nas asas à raiva e desespero da vítima É a fábula do leão e do mosquito. Mas o que então se passou em mim lhe parecerá incrível: a minha cólera precisava desabafar-se contra alguém, e na impossibilidade de dar um corpo àquela injúria atroz, levei a ingratidão até encarná-la em Lúcia, causa inocente do que sucedia. 

  

Ela tinha razão quando temia que as nossas relações fossem conhecidas, e quando fazia tudo por escondê-las, como se escondem à sombra as flores delicadas que o vento fresco ou o sol ardente crestam e matam. 

 

Saí bem decidido a pôr um termo à situação vergonhosa e humilhante em que me achava colocado. As palavras de Sá me queimavam os ouvidos. Eu vivendo à custa de Lúcia, eu que esbanjava a minha pequena fortuna por ela! Mas as calúnias tinham razão em um ponto; não exibia a minha amante como um traste de luxo, ou um manequim da moda; roubava o bem que lhes pertencia, visto que não era milionário para ter o direito de possuí-lo exclusivamente. 

 

Não me dei ao trabalho de procurar o meu tílburi e parti a pé; precisava agitar-me. 

 

Um vulto de mulher passou rapidamente. Ao voltar a esquina, encontrei-o parado. Chegou-se a mim e ergueu o véu. Reconheci Lúcia. 

 

— Divertiu-se muito? perguntou-me com interesse. 

 

— Oh, muito; nem fazes idéia! 

 

— Eu vi! disse timidamente. 

 

Não compreendi. 

 

— O que viste? 

 

— Vi-o dançar, passear na sala com as moças; acompanhei-o de longe toda a noite. Estava defronte, escondida por detrás das cortinas. 

 

Havia em face da casa do Sr. R... um miserável botequim, onde ela alugara um quarto a fim de passar a noite vendo-me. Era sublime de delicadeza, e contudo esta prova de afeição, que em outra circunstância me comoveria, pareceu-me uma perseguição insuportável, e esteve quase fazendo transbordar a minha cólera concentrada. 

 

— Não gosto nada destas extravagâncias, que dão em resultado comprometer-me. 

 

— Ninguém me conhece ali; e não podem adivinhar o que me trouxe. Agora mesmo, se a rua não estivesse deserta, me animaria a falar-lhe? Fique certo de uma coisa: não há nada neste mundo que eu deseje tanto como vê-lo; e me privaria desse prazer se ele pudesse trazer-lhe um dissabor. 

 

— Com que fim vieste a essa casa? Não posso sair uma noite sem que me veja espiado! Hás de confessar que não é muito agradável; se pensas que é este o meio de me prender, estás completamente enganada. Aprecio muito a minha liberdade; deves te lembrar que entre nós não existem compromissos. 

 

— Nem um decerto! 

 

— Portanto não temos que espiar-nos um ao outro.  

 

— Perdoe-me: fiz mal, não o farei nunca mais.  

 

Calei-me.  

 

— Diga-me ao menos que não está agastado! 

 

— Boa-noite! 

 

Lúcia precipitou-se para impedir-me o passo; vi um instante brilhar na sombra o seu olhar cintilante, mas logo deixou pender os braços, curvando a cabeça:  

 

— O coração me adivinhava! O Sá!... 

 

Continuei o meu caminho.  

 

Era a primeira noite, depois de um mês, que passava no hotel, e longe de Lúcia; como me achei só no deserto da nova existência que ia começar!

XII 

 

Meio-dia a dar no sino das torres, e eu entrando em casa de Lúcia. 

 

Tinha refletido: essa amizade não podia continuar; se havia de desatar mais tarde, depois de me ter feito curtir mil dissabores, bom era que cessasse desde logo. Não julgue porém que estava resolvido a separar-me por uma vez de Lúcia; minha coragem não chegava a tanto. O que eu desejava era demitir de mim um título que me esmagava na minha pobreza, o título de amante exclusivo da mais elegante e mais bonita cortesã do Rio de Janeiro. 

(continua...)

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