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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Felisberto — Homem mau, sustento ainda. Tu és rico, mesmo até muito rico; não és casado, nem tens filhos, sobram-te pois os recursos; nosso irmão te recebia em casa, e és o padrinho de sua filha; no entanto esquecido de nossos pais, do nosso sangue, do nosso amor de crianças, e do mais santo dever, tu consentias que nosso irmão passasse pelo maior vexame do mundo! És um homem mau, um avarento, um parente ruim. (A Maurício) Maurício, foi somente há uma hora que eu soube de tua desgraça; eu sou um pobre marceneiro, e trinta e cinco anos de economias deixaram-me apenas ajuntar estas oitos apólices de conto de réis. (Apresenta-as) Eu as reservava para meu filho...mas vejo que precisas muito...oito contos de réis talvez não cheguem...diabo! não tenho mais vintém; arranja-te, porém, conto com isto, enquanto eu trato de vender a minha casinhola, que nos dará ainda uns cinco ou seis contos. Nada de cerimônias...por fim de contas tu és meu irmão...anda...toma...aceita, Maurício; aceita...e meu filho que trabalhe...

Maurício (Chorando) — Felisberto!...

Leonina (Abraçando Felisberto) — Meu querido pai!...

Henrique (Abraçando-o) — Abençoado sejas, meu pai!...

Felisberto (Confuso) — Que algazarra por uma coisa tão natural!

Hortênsia (Curvando-se) — Meu irmão, perdoe-me o mal que lhe tenho feito!

Felisberto — Minha senhora...então que é isto?...o passado, passado; viva Deus!

A mulher de meu irmão é minha irmã...Abro-lhe este peito... é rude, é grosseiro, mas venha...pode vir que é um peito de madeira de lei! (Abraça Hortênsia)

Anastácio — E eu então, Felisberto?

Felisberto — Toma lá (Indo a ele) Mas tu és um homem mau.

Anastácio — Alto, senhor mestre marceneiro! Dobre a língua, guarde a suas apólices; o que veio fazer, já está feito.

Leonina — Meu padrinho...

Anastácio (Dando papéis a Leonina) — Toma esta escritura de hipoteca, e estas letras, Leonina, entrega-as a teu pai, e dize-lhe que para o futuro tenha mais juízo.

Hortênsia — Maurício! De joelhos aos pés destes dois anjos! (Vão ajoelhar-se aos pés de Anastácio e de Felisberto, e eles os suspendem)

Anastácio — De joelhos, a Deus, meus irmãos! De joelhos a Deus e agradecei-lhe a lição que recebestes, e a felicidade de vossa filha!

FIM DO QUINTO E ÚLTIMO ATO

FIM

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