Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
E ainda pior que os homens, a aranha, o tipo da malvadeza levada ao zênite, a celeradez nec plus ultra, à mais horrível exceção em tudo, a aranha mistura o amor com o ódio e o gozo com o assassinato, a aranha cede ao instinto, obedece à lei da reprodução da espécie, e satisfeito o império natural da lei, a aranha, como a antiga e fabulosa amazona, ataca, fere, e mata aquele mesmo que pouco antes lhe dera a glória próxima de encher de ovos prolíficos a sua tela.
Onde se viu perversidade semelhante!!!
XXXIX
Horrorizado da aranha, desviei dela a minha luneta mágica e em movimento de repulsão levei-a até uma das extremidades do telhado, onde encontrei metade do corpo de um rato que me olhava esperto, e com ar que me pareceu de zombaria.
Senti vivo desejo de estudar o rato e fixei-o com a minha luneta; mas o tratante somente se deixou exposto durante minuto e meio, e fugiu-me, deixando-me ouvir certo ruído que me pareceu verdadeira risada de rato.
E fiquei sem poder apreciar esse quadrúpede roedor e daninho pela visão do mal!
O rato é de todos os animais que tenho encontrado, o único que não me foi possível estudar tanto quanto desejava.
Por quê?...
Seria isto efeito do acaso?
Ou é que os ratos tem no Brasil o privilégio de escapar à justa curiosidade, e às justíssimas diligências perseguidoras de quem os deve apanhar, e pôr em boa guarda?...
Não creio nesta segunda hipótese.
As ratoeiras abundam; todos o sabem.
Agora o que desconfio que seja verdade, e que a justiça pública arma ratoeiras que só apanham os camundongos, e deixa e tolera que famosas ratazanas vaguem impunes, floresçam e brilhem, fazendo farofa pelas ruas da cidade.
XL
Ainda conservava fixada a minha luneta mágica no ponto donde me fugira o rato, quando senti rumor de pessoas que vinham subindo a escada do sótão e ouvi distintamente a voz do médico. O meu primeiro cuidado foi imediatamente esconder a luneta do mesmo modo que antes fizera, e em seguida fechei os olhos e fingi que dormia tranqüilo sono.
Era meu intento, fingindo-me adormecido, ouvir as observações do médico e dos meus três ruins parentes para saber o que devia esperar e temer, e como me cumpriria, ou me conviria proceder.
Confesso que foi grande atrevimento meu querer iludir o médico com um sono falso; contei porém a ligeireza habitual dos exames de muitos desses doutores que, depois do primeiro e esmerilhado estudo do doente, supõem governar a natureza e a moléstia, e dão a cada uma de suas visitas a duração de—cinco minutos por cerimônia.
Desconfio que a visão do mal tem me tornado mordaz; mas os homens merecem ser tratados assim.
XLI
Entraram.
Reconheci as vozes do doutor, do mano Américo da tia Domingas, e da prima Anica.
—Ele dorme, disse a prima Anica.
—Sono reparador, observou o medico com um tom magistral.
E logo tomou-me o pulso com a maior delicadeza para não me despertar; tocou-me a fronte, passando por ela a palma da mão, e examinou-me o calor dos pés.
—Do mais grave perigo está salvo, disse então o doutor; operou-se uma crise benéfica, e a congestão foi a tempo embaraçada. Respondo pelo nosso homem.
—A noticia não pode ser mais agradável, disse o mano Américo; mas eu receio muito alguma recaída...
—Não é impossível.
—A causa subsiste...
—Que causa?...
—A posse em que ele está da luneta que supõe mágica.
—Luneta que é obra do diabo! exclamou a tia Domingas.
—Luneta aleivosa e má, acrescentou a prima Anica.
—Minhas senhoras, não indiciem acreditar no poder mágico da famosa luneta para que eu não me convença de que devo tratar aqui de três doentes em vez de um.
—Essa é boa! tornou a tia Domingas: pois seria a primeira vez que o espírito maligno fizesse das suas no mundo? Bem se diz que os médicos não são religiosos.
—O senhor doutor talvez tenha razão, disse Anica; há porém coisas que fazem tontear a gente!
—Eu creio, respondeu o médico em tom brincão: a senhora por exemplo não tem em si o espírito maligno, e contudo aposto que terá feito andar às tontas as cabeças de muitos moços de bom gosto.
—Ora, ora.
—Mas, doutor, acudiu o mano Américo; tratemos seriamente deste caso: eu também não tenho a simplicidade pueril de acreditar no poder mágico da luneta fatal; todavia meu irmão está possuído dessa idéia.
—O que é mau sintoma, convenho.
—Muita gente se julga ofendida pela luneta e a teme...
—Segue-se que também é preciso tratar dessa gente que padece tanto, como seu irmão. —O doutor graceja...
—Não; falo sério.
—Penso que convinha muito e ainda mesmo à força tomar essa luneta, e quebrá-la.
—Francamente, disse o médico; julgo que seu irmão iludido por um suposto mágico, tem-se tornado vitima da própria imaginação exaltada no maior extremo; com efeito essa ilusão, de que ele é escravo, assumiu o caráter de mania...
—Então...
(continua...)