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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

— Não o posso acompanhar! disse ela com uma expressão que significava  um abismo nos separa. 

 

Fui à partida, que esteve brilhante. Lá a encontrei, à senhora, e à sua filha, anjo que ainda não tinha batido as asas brancas, deixando viúvas a velhice e a infância de quem tanto amara neste mundo. Havia moças lindas e elegantes, que tornavam a dança verdadeiro prazer, e não sacrifício penoso, como sucede na maior parte desses saraus, em que o convidado é apenas um instrumento de quadrilha, compasso coreográfico, que se transforma na hora da ceia em máquina gastronômica. 

 

A Sr.ª R..., com uma amabilidade que eu decerto não merecia, esmerou-se em tornar agradáveis as horas que passei em sua casa: apresentou-me a quanto havia ali de distinto pela beleza, pela inteligência e pela virtude; e com o tato fino da mulher de salão poupava-me as banalidades cerimoniosas das apresentações, fazendo-me entrar logo na conversação que animava com a sua graça e os seus repentes felizes. A filha, gentil moça de 17 anos, fez-me a honra de uma contradança e de algumas voltas de valsa. 

 

Confesso que fiquei fazendo melhor idéia das reuniões dançantes da sociedade fluminense. 

 

Pouco tempo antes de retirar-me, vi Sá que me acenava de uma janela da sala de jogo, onde se abrigara para fumar. Logo ao entrar tinha-lhe falado; mas evitara a sua conversa, com receio de que me fizesse perguntas sobre Lúcia; sentia remorder-me a consciência; e pouco disposto a aceitar os seus conselhos, previa que eles me haviam de irritar tanto mais, quanto seriam prudentes e razoáveis. 

 

— Desculpa-me: vou dançar. 

 

— A quadrilha ainda se demora, bem sabes; mas queres me escapar! 

 

— Que idéia! 

 

— Queres escapar-te, sim. Cuidas que sou desses homens que perseguem os seus amigos de conselhos que nada lhes custam, porque nem sequer dão o exemplo; e com isso julgam-se quites de todos os deveres da amizade! Estás enganado, Paulo. Disse-te uma vez a minha opinião sobre as tuas relações com Lúcia; fiz o que me cumpria: o resto te pertence. 

 

— Estava tão longe de pensar nisso agora! Como tens achado a partida? Há muito tempo não me divirto tanto!... Rostos encantadores, toilettes de gosto, excelente serviço; nada falta! 

 

— Deixa estes elogios aos folhetinistas em cata de novidades. Compreendes que não te chamei para ouvir o teu juízo sobre a reunião do Sr. R... 

 

— E para que me chamaste então? 

— Para pedir-te um conselho. 

 

— A mim? 

 

— De que te admiras? Porque não os dou, segue-se que não posso pedi-los? Ao contrário! 

 

— Vejamos que negócio importante é esse que exige o meu voto!  

 

— Julgas que um amigo deva referir ao outro tudo o que se diz a seu respeito? Vamos, a tua opinião franca! 

 

— Julgo que é o maior serviço que possa prestar a amizade. 

 

— Bem. Ouve então o que dizem de ti. 

 

— Para quê? Não dou peso à maledicência, Sá. 

 

— Pode ser que tenhas razão; mas ouve primeiro; depois riremos juntos dessas parvoíces. Há aqui no Rio de Janeiro certa classe de gente que se ocupa mais com a vida dos outros, do que com a sua própria; e em parte dou-lhes razão; de que viveriam eles sem isso, quando têm a alma oca e vazia? Essa gente já sabe quem tu és, que fortuna tens, quanto ganhas, onde moras e como vives. 

 

— É fácil saber; não tenho que ocultar, mercê de Deus. 

 

— Estou convencido que poderias habitar a casa de vidro de Catão; mas infelizmente não a habitas; e portanto o mundo não vê justamente o que a tua modéstia esconde por detrás das paredes, isto é, o lado nobre e honroso da tua vida. O resto está patente. 

 

— Mas ainda uma vez, Sá, o que pretendes com isso? Que me importa o que pensam a meu respeito? Não tenho reputação a perder. 

 

— Mas tens reputação a ganhar. És amante de Lúcia, há um mês; e eu te conheço, sei que estás te sacrificando. Entretanto, como Lúcia não aparece mais no teatro, não roda no carro mais rico, e já não esmaga as outras com o seu luxo; como a Rua do Ouvidor não lhe envia diariamente o vestido de melhor gosto, a jóia mais custosa, e as últimas novidades da moda; sabes o que se pensa e o que se diz? Que estás sacrificando Lúcia... que estás vivendo à sua custa! 

 

O primeiro ímpeto de minha indignação caiu sobre Sá, em quem se encarnava o insulto vago e anônimo; cometia um excesso, se o seu olhar franco e leal não me fizesse entrar em mim. 

 

(continua...)

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