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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Vi uma pulga. A perversa estava cheia de sangue, talvez meu, com que se havia regalado, e atenta descansava em suas grandes patas posteriores pronta a dar o salto de ataque ou de retirada. A pulga é a parasita sanguinária que vive à custa de muitos quadrúpedes e que não pouco persegue o homem.

Vive de beber sangue a atroz, e freqüentemente agrava a atrocidade, ultrajando o decoro com perseguição revoltante. Inimiga declarada do homem e da senhora, ousa devassar o leito da honestidade e do recato, morder sem piedade a menina, a donzela, a esposa, a matrona, que temerosas dão-se a mil cuidados e diligências para descobrir e apanhar a incômoda sanguinária antes de se deitarem.

No teatro a pulga não falta, no baile também salteia, e assalta, embora menos freqüente; às vezes vemos no teatro ou no baile uma elegante senhora, que parece preocupada, que indicia no rosto, e em leves movimentos contrafeitos achar-se de mau humor ou indisposta; debalde lhe perguntamos se sofre, ou se alguma coisa lhe falta: ela o não confessa; é porém uma pulga insolente, que aferrada entre os dois níveos pomos, ou abaixo de algum deles lhe sorve o sangue com atrito cruel.

A pulga é um demônio que faz inveja a muita gente sem generosidade.



XXXVI

Vi um mosquito: outro monstro sanguinário dez vezes mais bárbaro que a pulga; porque a pulga farta-se do sangue em silêncio, e não zomba das vitimas, e o mosquito, à semelhança dos selvagens e dos bárbaros que dançavam festivos em roda dos cadáveres de suas vitimas, o mosquito, digo, bebe sangue ao som da musica, ou antes e depois de bebê-lo em nossos corpos, canta enfadonho, insuportável, desatinados, insistente como o grilo.

A natureza, que se me afigura mãe, fonte exclusiva do mal, auxiliou a perversidade do mosquito, dando-lhe, em facetas imperceptíveis e inumeráveis, imperceptíveis e inumeráveis olhos, com os quais o mosquito vê perfeitamente para diante e para trás, para a direita e para a esquerda, para cima e para baixo, pelo que é licito concluir uma coisa horrível isto é, que cada mosquito enxerga muito mais do que os afamados estadistas do Império do Brasil, que, segundo o testemunho dos fatos, mostram ser tão míopes como eu.

Por esta consideração ainda mais detesto o mosquito.



XXXVII

Vi o cupim.

O cupim não é sanguinário, mas a sua malvadeza não é menos prejudicial à sociedade. A visão do mal patenteou-me segredos incríveis que li no seio recôndito desse inseto destruidor.

O cupim estraga, aniquila mais cabedais do que certos ministros da fazenda e de obras públicas que temos tido no império do Brasil: façam idéia de quanto ele estraga para vencer na comparação!

Conhecendo a faculdade destruidora do maldito inseto, os carpinteiros, os livreiros, os alfaiates e as modistas fizeram comércio de amizade, e pacto de aliança com o cupim, e todos reunidos representam e formam uma firma comercial sob a denominação de Cupim e Cia.

Em dois anos arruma-se uma casa, em dois meses fica em pó e renda uma biblioteca, em duas semanas torna-se sem serventia um guarda-roupa.

E note-se, o cupim é implacável, profundamente desprezado de todas as conveniências, e revoltoso ao ponto de não dar importância nem a um decreto referendado pelo ministro do império; em seu furor o cupim é capaz de não parar nas velhas calças brancas da corte, e de ir até roer as novas calças azuis dos nossos gentis-homens.

O cupim é portanto um inseto-monstro que deve ser posto fora da lei.

XXXVIII

Além do cupim vi uma aranha.

Feio bicho; era porém ele que principalmente dominava o teto do meu sótão.

No centro da imensa teia que se estendia em admirável rede de mil fios entrelaçados por baixo de todo o telhado, o diabo da aranha se ostentava soberana.

A um movimento do ar que sacudia tênue fio da teia, a aranha avançava logo para, se era preciso, remendar ou dar nó à rede; ao toque de um inseto os fios tocados enlaçavam a mísera presa que a aranha ia logo devorar sem piedade.

O sistema da centralização política e administrativa estava ali perfeitamente realizado pela aranha.

Era exatamente como a administração, a polícia e a guarda nacional do Brasil.

Mas a aranha ia em perversidade muito além desse domínio escravizador do telhado.

Feia, assassina, terrível, a aranha excede em crueza a todos os animais irracionais, e, oh assombro! até aos racionais, até aos homens!

Como todos os insetos carnívoros caça, mata e devora outros insetos.

Pior que os outros insetos assassinos, guerreia, e mata os da sua própria espécie a semelhança dos homens.

(continua...)

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