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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Em casa apenas levantado da cama, e durante o dia todo a família os parentes com hipócritas aparências de compaixão a repetiram mil vezes: —"coitado! está doido..."

Os falsos amigos em suas visitas dizerem-me: —"trate-se! creia que a sua cabeça não está boa..."

Na rua, no passeio, no teatro, em toda parte uns a rir e a gritar: — "está doido!"; outros com voz lastimosa a murmurar: — "pobre moço! está doido".

Durante a noite guardas possantes velando no quarto do doido.

E oito, quinze dias seguidos, um mês, família amigos, conhecidos, desconhecidos, toda a população de uma cidade a repetir de hora em hora, de minuto a minuto, incessantemente: — "está doido! está doido! "

Quem seria, quem é capaz de resistir a semelhante impulso violento para a loucura?...

De que vale em tais casos a própria consciência contra esse acordo geral que a condena?... O homem mais forte cede exasperado à convicção de todos, e em breve prazo começa a duvidar de si...

E desde que começa a duvidar de si, começa a enlouquecer...

Oh! é horrível!... e um martírio que os algozes mais ferozes nunca imaginaram!

Mas eu hei de reagir!

Zombarei da fúria desses monstros que se chamam homens.

Sinto-me grande, porque sou um a assoberbar a todos.

E para assoberbá-los é condição indispensável sofrer com frieza, resignação, e sem desesperar: saberei fazê-lo; e além da frieza e da resignação no sofrimento, é também essencial o mais profundo desprezo da humanidade.

Oh! é impossível que eu a despreze mais!



XXXII

Era dia, e eu estava lá cansado de refletir e de esperar.

Fraco, abatido e apreensivo, uma prolongada e grave meditação podia ter conseqüências funestas para mim; tive medo da exaltação do meu espírito mas para dominá-la, para arrancar-me a ela, eu precisava do uma distração poderosa.

Mas de que modo entreter-me, distrair-me no triste encerro do meu sótão; deitado no meu leito, e com guardas a dois passos?...

De que me havia de lembrar?.., da minha luneta mágica; foi uma lembrança muito natural. Tanto tempo já tinha passado sem que eu gozasse o poder miraculoso desse tão perseguido vidrinho ótico!

Não pede conter-me; a que risco me expunha?... os meus guardas eram escravos da família e habituados a respeitar-me; eu estava certo de que eles não ousariam vir lutar comigo para me tirar com violência a luneta mágica.

Não hesitei.

Com o maior cuidado e sossego desatei a luneta mágica, que pouco antes atara prudentemente a uma de minhas pernas, e deitado, como estava, não tendo objeto de escolha ou de preferência em que a fitasse, fitei-a indiferentemente no teto da casa.

O sótão, onde eu tinha o meu aposento, era cômodo, porém multo modesto, conforme as regras de humildade da tia Domingas; o teto era de telha vã, e a casa já contava de existência meia dúzia de lustros.

O que a minha luneta me mostrou foi uma multidão de insetos muito comuns, e demasiadamente conhecidos de todos nós para que eu me ocupe em fazer a sua descrição, segundo os apreciei durante os três minutos da visão das aparências.

Chegada porém a visão do mal que imensa corte de demônios! Quanta maldade em corpos tão pequenos!



XXXIII

Vi um grilo.

Em sua natureza maléfica o perverso diabrete sentindo-se incapaz de produzir maior dano, rogando uma contra a outra base de seus élitros produz o que lhe chamam canto, e que é um dos pequenos tormentos da humanidade.

Não julgueis que é insignificante o malefício perturba o sono, gasta a paciência, arranha os ouvidos, ofende os nervos e impede o sossego.

O grilo com o seu canto desagradável, teimoso, e importuno, é o tipo desses homens cruéis, estafadores da cortesia alheia, que muitas vezes tomam conta de uma pobre vítima que tem em que se ocupar, e horas inteiras a martirizam com interminável massada.

Felizmente para mim os grilos são mais freqüentes nas assembléias legislativas, do que no meu sótão.



XXXIV

Ao pé do grilo um seu irmão pela família vi um gafanhoto: outro malvado e ainda muito pior; é flagelo em vida, e o tem sido depois de morto.

Vivo, o gafanhoto é o inimigo do jardim, do pomar e da lavoura; dotado de infernal gula devora flores e folhas, ervas e searas; pelo seu peso parece desprezível, e todavia quando invade em multidão incalculável, quando é praga que ataca, ao seu peso estalam arvores que derribadas caem.

Morto, o gafanhoto é em certas circunstâncias muito pior e nisso tem por igual o seu irmão grilo. Dado o caso de emigração ou de praga de gafanhotos e de grilos, se uma súbita mudança atmosférica, alguma tempestade dá cabo deles, a conseqüente putrefação da imensidade desses malvadinhos determina a peste que povoa os cemitérios.

Os grilos e os gafanhotos não são melhores que os homens.



XXXV

(continua...)

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