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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

— Certamente me farás arrepender. Sabes que eu não gosto que me contrariem. Adeus. 

 

Laura fitou nela um olhar surpreso, no qual passou rapidamente a sombra de um ressentimento; mas acabou rindo-se, e saiu depois de dizer estas palavras: 

 

— Tu me expulsas de tua casa? Não tenho o direito de me ofender; acabas de pagar o aluguel da minha. 

 

A porta fechada por Lúcia bateu com tanta força que as vidraças das janelas estremeceram. 

 

Tinha assistido de parte a esse pequeno e vivo diálogo, e compreendera tudo. A alusão que Lúcia fizera na noite da ceia realizava-se; Laura recorrera a ela numa dificuldade, e acabava de receber o benefício da mão que insultara. Inda mais, sem delicadeza para compreender o motivo da contrariedade de Lúcia que desejava ocultar de mim a sua generosidade, saía maculando com uma ironia grosseira a gratidão que exprimia. 

 

O coração de uma me apareceu vil e torpe, quanto a alma da outra se mostrava nobre, elevada e rica de sensibilidade. 

 

Lúcia deu algumas voltas pela sala, enquanto dominava a sua agitação, e caminhou para mim risonha, meiga, e ainda resplandecente das cores vivas que uma cólera passageira abrira em suas faces, como as tempestades rápidas, que atravessam a atmosfera, deixando a natureza mais brilhante e viçosa. 

 

— Agora é meu até?... e a última palavra desfez-se num sorriso celeste. Até amanhã! E meu só. 

 

Inclinou a fronte, que eu beijei. 

 

— Por que estavas há pouco tão zangada? 

 

— Já não me lembro! respondeu com faceirice, pousando a unha rosada no lugar que os meus lábios tinham tocado. Apagou tudo! Estas horas que acabam de passar, não contam na minha vida. Dormi e sonhei. Foi o senhor que me acordou; e eu acordei rindo-me. Não viu? 

 

— Quiseste ocultar-me; mas entendi tudo. Acabavas de fazer um benefício à mulher que te ofendeu. 

 

— Ela não teve culpa! Foi um despeito porque não lhe deram a preferência: eu faria o mesmo. Demais, não era justo o que ela disse! 

 

— Em todo o caso é preciso muita baixeza para pedir-se um favor à pessoa a quem se dirigiu um insulto. 

 

— Tinha pedido antes; e nem foi o que o senhor pensa. 

 

— Ah! Veio exigir o cumprimento da promessa feita. 

 

— Não foi assim, não senhor. Não exigiu coisa alguma. 

 

— E que fazia ela aqui quando eu cheguei? 

 

— Estava me aborrecendo. 

 

— Estava te agradecendo. 

 

— É o mesmo. 

 

— E por que te agradecia? Porque lhe tinhas dado o que veio pedir; o dinheiro para pagar o aluguel da casa. 

 

— Que teimoso! Se estou lhe dizendo que ela não me veio pedir nada. 

 

— Percebo; tu lhe ofereceste espontaneamente, e ela aceitou, porque vindo aqui não tinha outro fim. 

 

— Meu Deus! disse com um gracioso enfado, quando eu estou junto dele, não me lembro de outra coisa; e ele esquece-se de mim para ocupar-se com Laura! Quer saber tudo? pois eu lhe digo. Fui eu quem lhe mandou ontem esse dinheiro, uma ninharia; e ela veio aqui aborrecer-me e contar as suas desgraças. Está contente? 

 

— Não; fizeste uma esmola, é generoso; quiseste ocultá-la, é modesto; mas esqueceste que eu devia ter a minha parte nessa boa ação; e não te perdôo. 

 

— Assim nunca remiria os meus pecados! E o que eu fiz, não é tal uma boa ação; quando chegar a minha vez de precisar, ela me dará. 

 

— Ainda!... Deixarás de pedir-me a mim para pedir a ela? 

 

— Disse-o sem sentir! Não precisarei de nada; de nada senão que me venha ver! Isso, fique certo que lhe pedirei todos os dias. 

 

Tomou-me a cabeça, e reclinando-a sobre o ombro, cobriu-me de carícias. 

 

— Hão de lhe ter dito já que sou muito avarenta. Não lhe enganaram, não! Sou; gosto de esconder assim o meu tesouro; de fazer tinir docemente as minhas moedas; de contá-las uma a uma até perder a soma; de embriagar-me como agora na contemplação de meu ouro, e estremecer só com a idéia de perdê-lo! 

 

Cada uma dessas palavras caía através dos beijos amiudados que me sufocavam. 

 

— Dizem que a avareza é um vício; mas desse não peço perdão a Deus, que me deu o meu tesouro, mesmo para que o escondesse do mundo, e não expusesse a maus olhados. Portanto fique sabendo, não há de vir à minha casa todos os dias como pensa! 

 

(continua...)

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