Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
—Que o senhor, tendo imaginação ardentíssima e fraquíssima razão, foi arrastado por um pérfido e malvado armênio até deixar-se dominar pela mais inacreditável mania; que por isso o senhor imagina ver o que não vê, o que não é real; supõe, julga infalível a visão extraordinária da sua luneta, e nas confidências de alguns amigos, que aliás abusam da sua credulidade enferma, descreve os corpos, e expõe íntimos das consciências de quantas senhoras, e de quantos homens fita com a sua luneta. —Mentira e verdade! corpos não, é falso; minha luneta 6 honestíssima; almas sim, minha luneta as patenteia plenamente, e eu tenho visto em todos hediondas maldades.
—Não discutamos agora esse pretendido poder da sua luneta. O que 6 certo é que o simples receio de que o senhor, acreditando que vê realmente o que apenas molestamente imagina, e que descreve em confidências de amigos quadros físicos, defeitos e virtudes, em que ninguém crê; mas que em todo caso ridiculizam não pouca as vítimas da sua luneta, faz com que todos o evitem, todos o queiram longe, todos temam somente o ridículo que provém do que chamam sua manta.
—Mania!!! que o seja embora; mas eu juro que não tenho um só amigo, que não tenho confidentes: isso é calunia.
—Cumpria-me dar-lhe estas explicações, meu amigo. Fique certo de que não há homem, nem senhora de juízo que dê importância e que tema a sua luneta mágica; mas das suas falsas apreciações, e dos sonhos extravagantes mas não recatados, não ocultos da sua imaginação resultam o ridículo de que todos querem escapar.
—Entendo-o perfeitamente.
O Sr. A... disse-me ainda algumas palavras consoladoras; convidou-me a tratar da minha saúde alterada pelo excesso de imaginação, e fraqueza do espírito e deixou-me enfim.
XXVIII
E esta!
Por conseqüência estou definitivamente declarado doido pela opinião pública que e a rainha do mundo, e cujos decretos não tem apelação.
A humanidade perversa e infame engenhou o mais seguro dos meios para livrar-se de mim: não há recurso contra ela.
Todos os homens, todas as mulheres cientes do meu poder, todos e com eles e elas todos os médicos, autoridades declaradas e decretadas na matéria dizem—que estou doido!
Não há, não pode haver uma só voz que proteste contra a sentença; porque a todos eles e a todas elas convém que eu seja reconhecido—doido.
Há só uma voz que pode e há de protestar, é a minha, a voz suspeita, a voz do doido.
Por conseqüência estou—doido! ! !
E amanhã, ou hoje mesmo, talvez daqui a uma hora, quatro ou seis policiais quatro ou seis urbanos virão agarrar-me, e hão de conduzir-me ao hospício da Prata Vermelha!...
E meu irmão se mostrará compungido, e a prima Anica fingirá chorar, e a tia Domingas rezara por mim nos seus rosários!!!
E rir-se-ão todos de mim!... e me chamarão o—doido!
Meu Deus! estarei eu realmente doido?...
Ninguém compreende os tormentos que sofri com esta nova perseguição da perversidade dos homens, com esta idéia da —loucura —que começou a agitar-me.
O atordoamento da minha cabeça aumentou, a febre devorou-me com milhões de línguas de fogo e eu bradei em alta voz:
—Água! água! quem me dá água?...
XXIX
Lembra-me que vi entrar o mana Américo, a tia Domingas, a prima Anica, e meia hora depois o médico da família.
Lembra-me que eu quis falar e não pude, porque faltou-me a voz; lembra-me que procurei saltar fora do leito e não pude; porque me seguraram.
Lembra-me que instintivamente cerrei a minha luneta na mão direita, e que não houve esforço humano que pudesse conseguir abrir-me a mão, até que o médico, chegando nessa conjuntura, proibiu severamente o emprego de tal violência.
Lembra-me que a prima Anica perguntou:
—Ele está mesmo doido, senhor doutor?
E que o médico respondeu:
—Veremos.
Sábia resposta que não resolvia a questão.
Lembra-me que o doutor sangrou-me copiosamente no braço esquerdo.
Vi tudo isso sem poder dizer que estava vendo.
Depois saíram todos, deixando ao pé do meu leito dois escravos possantes para, em caso de necessidade, conter o doido.
Creio que dormi; quanto tempo não sei, talvez mais de vinte e quatro horas.
Quando acordei, senti penetrante dor na mão direita: eram os meus dedos que pregados na parte superior da palma da mão defendiam a luneta mágica; abri os dedos, levantei-os a custo. Quis ensaiar a voz e disse:
—Água!
Deram-me água, que bebi com ardor febril.
Descansando outra vez a cabeça no travesseiro, tornei a cerrar os olhos, mas com a consciência de me achar completamente acordado e refletidamente determinado a fingir que dormia.
O meu coração palpitava normal, eu não sentia mais nem atordoamento de cabeça, nem calor, nem sede; estava pois muito melhor, estava apenas um pouco abatido.
(continua...)