Por José de Alencar (1862)
— Sabes que terrível coisa é uma cortesã, quando lhe vem o capricho de apaixonar-se por um homem! Agarra-se a ele como os vermes, que roem o corpo dos pássaros, e não os deixam nem mesmo depois de mortos. Como não tem amor, e não pode ter, como a sua inclinação é apenas uma paixão de cabeça e uma excitação dos sentidos, orgulho de anjo decaído mesclado de sensualidade brutal, não se importa de humilhar seu amante. Ao contrário sente um prazer novo, obrigando-o a sacrificar-lhe a honra, a dignidade, o sossego, bens que ela não possui. São seus triunfos. Fá-lo instrumento da vingança ridícula, que todas essas mulheres prosseguem surdamente contra a boa sociedade, porque não as aplaude. O seu ciúme é fome apenas; se o amante tem alguma afeição honesta, ela torna-se confidente de seus amores, encoraja-o, serve-o mesmo, para ter o gosto de mais tarde disputar a presa. Então não há excesso que não cometa. Se for necessário aviltar o homem, ela o fará, à semelhança desses torpes glutões que cospem no prato para que os outros não se animem a tocá-lo.
— Mas a que vem este sermão, Sá? As minhas relações com Lúcia não têm nada que se pareça com o teu romance; tu me conheces bem para saber que não há mulher no mundo capaz de me atar à cauda de seu vestido, ainda quando fosse para elevar-me, quanto mais para arrastar-me na lama.
— Quando essa mulher é Lúcia, o próprio José devia temer, Paulo.
— É perigosa assim? perguntei zombando.
— A mulher de Putifar foi uma pobre moça, devorada pela concupiscência, que se atirava cega e alucinada nos braços do homem desejado. Era natural que a virtude chocada bruscamente repelisse o vício, como um corpo elástico repele outro. Essa mulher não conhecia a arte da tentação. Se ardendo em febre sensual, quando estendia a perna nua ou descobria o seio a José, tivesse a força de olhá-lo como ao cão importuno que gira em torno do festim a quem o conviva repele com o pé, não se passaria muito tempo sem que o animal exasperado se lançasse sobre o osso, que o tentava, para devorá-lo, embora soubesse que lhe atravessaria a garganta.
— Mas eu não sou José, respondi sorrindo; e prefiro a carne que me dão, ao osso, que me recusam.
— Por isso mesmo! Bebeste o primeiro trago do vinho; provaste uma vez do fruto proibido. Já conheces o amor dessa mulher: é um gozo tão agudo e incisivo que não sabes se é dor ou delícia; não sabes se te revolves entre gelo ou no meio das chamas. Parece que dos seus lábios borbulham lavas em bebidas em mel; que o ligeiro buço que lhe cobre a pele acetinada se eriça, como espinhos de rosa através das pétalas macias; que o seu dente de pérola te dilacera as carnes deixando bálsamo nas feridas. Parece enfim que essa mulher te sufoca nos seus braços, te devora e absorve para cuspir-te imediatamente e com asco nos beijos que atira-te à face!
— É verdade! disse eu lembrando-me, mas já a senti uma vez sem esse sabor agro e corrosivo.
— Porque teu paladar se vai habituando. Só conheci uma criatura assim e não era uma cortesã... Mas não se trata disto, atalhou Sá como repelindo uma recordação importuna. Quando supuseres que o tédio te invade, procurarás debalde o prazer; a mulher a mais provocante, esteja ela possessa de vinho e de amor, te parecerá morta. Eis o perigo: terás a força de resistir?
— Tu não resististe?
— Com esforço; e entretanto quando a conheci, há um ano, já tinha feito todas as minhas provas; não creio que possas dizer o mesmo.
— Mas, se Lúcia é essa mulher esquisita, insuportável e caprichosa, ela mesma se
incumbirá de curar-me.
— E se eu te disser que é essa versatilidade e inconstância de humor que a torna mais excitante! Acrescenta que Lúcia tem vontade de apaixonar-se por ti.
— Oh! essa é galante! Como fizeste semelhante descoberta?
— Esta carta! O que é que Lúcia me pode dever daquela ceia, senão o teu conhecimento?
— Eu já a conhecia.
— De vista.
— Na frase da escritura, Sá.
— Ah!
— Estive em sua casa, quinta-feira.
— Bem: cumpri o meu dever de amigo; cumpre o teu de homem sensato. Adeus.
Voltei de tarde à casa de Lúcia; encontrei na sala uma das nossas companheiras de ceia. Lúcia vendo-me entrar, ergueu-se bruscamente.
— Desculpa, Laura, amanhã passarei por tua casa, e então conversaremos; agora não posso.
— Eu te deixo, mas acredita que não esquecerei nunca o favor que me fizeste.
— Não vale a pena. Adeus.
— Hei de lembrar-me sempre que sem ti, não teria amanhã onde dormir. É pequeno serviço?
— Não vês que me estás aborrecendo, Laura! disse Lúcia batendo o pé com impaciência.
— Está bem, não quero que te arrependas do benefício.
(continua...)
ALENCAR, José de. Lucíola. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2047 . Acesso em: 21 jan. 2026.