Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
E ninguém mais fugia de mim, porque todos me espantavam com ameaças.
No terceiro dia fiquei encerrado em casa; mas à noite fui a um aparatoso baile, para o qual estava desde algumas semanas convidado.
Era uma brilhante festa dada em aplauso e honra de um casamento com ardor desejado, e com júbilo abençoado pelas famílias dos noivos.
Apenas apareci foi extraordinária a agitação que se sentiu na sala cheia de convidados, as senhoras encheram-se de terror, e cobriram os rostos com os leques e os lenços, a noiva esteve a ponto de desmaiar; os homens deixaram-me perceber pragas que a cortesia, e o respeito à sociedade onde estavam, abafavam; o dono da casa três vezes encaminhou-se para mim e outras tantas recuou confuso e com evidentes sinais de contrariedade; eu o compreendi, e poupando-lhe o amargor de uma despedida formal, fiz o que me cumpria: fugi desesperado, chorando de raiva, e cada vez mais convencido da malvadeza de toda a humanidade.
XXV
Que noite de cruel vigília ainda mais cruel do que tantas outras, cujos horrores já havia provado!
Eis-me pois ainda mil vezes mais desgraçado do que dantes!
Não creio em homem algum, em mulher alguma: sou a descrença viva, ceticismo animado.
Desconfio de todos.
Aborreço a vida, mas sendo obrigado a Viver, como vai correr a minha vida?
Um por um todos se arreceiam de mim, e todos me detestam.
Em toda parte sou por todos enxotado, de toda parte repelido.
Ninguém me quer ver; quando apareço, ninguém me tolera.
Tocou-me a lepra moral.
Eu sou como a peste, pois todos fogem de mim; sou pior que a peste, sou como um cão hidrófobo que se persegue, e cuja morte se deseja!
Oh, meu Deus! meu Deus! Eu sou católico e é somente por isso que não me mato; mas se alguma vez o suicídio pudesse merecer o perdão, a vez do perdão do suicídio era esta.
Meu Deus! eu pequei, confiando na magia, entregando-me a um pérfido mágico, aceitando para meus olhos o socorro do demônio!
Perdão, meu Deus!
Oh!... como é bom não ver!!!
XXVI
Não sei, não posso dizer quantas vezes nessa noite furioso lancei mão da luneta mágica para quebrá-la; mas, com vergonha o confesso, nunca tive animo bastante para realizar o meu pensamento.
Não dormi um instante, chorei quase toda a noite, e quando não chorei, revolvi-me, debati-me no leito em agitação violenta, e devorado por abrasadora sede.
XXVII
Na manhã seguinte eu tinha os olhos inchados, a cabeça atordoada, e o rosto inflamado; senti-me doente; mas não quis anunciar o meu estado.
Às dez horas introduziram no meu quarto o Sr. A..., o dono da casa, donde eu fora expelido na noite antecedente.
Recebi-o sem ressentimento.
—Está doente ? perguntou-me.
—Um pouco; sofri muito esta noite.
—Eu o previ, meu amigo, e por isso me apressei a vir dar-lhe explicações, que reputo indispensáveis até para o bem do seu futuro.
—Agradeço a sua bondade; eu porém sei tudo e sei demais.
—Que sabe, pois?
—Que um miserável, o muito conhecido velho Nunes, fez espalhar a notícia de que eu possuo uma luneta magica, pela qual chego à visão do mal, e descubro todos os segredos e todas as maldades e vícios que se escondem e se dissimulam; e que o medo que causa n minha luneta faz com que se levantem contra mim todos os homens, porque com efeito todos são perversos e temem que sejam conhecidas suas perversidades.
—E então...
—Então desde que se espalhou tal noticia eu tenho sido apupado, insultado, repelido por toda parte, onde apareço. Não é isto?
—Não é tudo, como lhe parece.
—Explique-se.
—Não se ofenderá se eu lhe disser toda a verdade?
—Não: diga tudo.
—Meu amigo; a população da nossa capital 6 muito civilizada, e não acredita no poder da sua luneta mágica.
—Neste caso por que me fogem?... Por que me apupam?... Por que me temem?
—Aqueles que o têm perseguido com apupadas e os que fogem tremendo da sua luneta dividem-se em duas classes, uma a que pertencem todos os crédulos e pobres de espírito que ainda prestam fé a feiticeiros e artes mágicas: há dessa gente em todas as capitais; a outra é a dos garotos que ousam rir e zombar de infortúnios e males a que todos estamos sujeitos.
—Que quer dizer?
—Quanto aos mais eu vou dizer-lhe o que há, e arme-se de coragem para ouvir-me.
—Nada mais me pode admirar, e menos assustar neste mundo.
—O velho Nunes, que se proclama seu amigo e intimo confi dente, foi com efeito o propalador das notícias que correm; e sabe o que se pensa? O que todos acreditam?
—Diga.
(continua...)