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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

Quando voltamos ao salão, já estava iluminado. 

 

É preciso ter como Lúcia a beleza, a sedução e o espírito que enchem uma sala; a mobilidade e a elegância que multiplicam uma mulher, como o prisma reproduz o raio do sol por suas mil facetas; para assim consumir deliciosamente uma noite com as filigranas da galantaria feminina. Em três horas, que voaram, quer saber o que fez essa mulher? Tocou e cantou com sentimento, conversou com a sua graça habitual, representou-me tipos da comédia fluminense; fez a sátira dos ridículos da época; recitou versos de Garrett, como o faria a Gabriela; brincou, saltou, dançou; e por fim acabou tornando-me criança como ela, e obrigando-me a jogar prendas que eram resgatadas com um beijo na face. 

 

Às dez horas quis retirar-me. Lúcia suspendeu-se ao meu ouvido, e balbuciou muito baixo uma súplica: 

 

— Fique! 

 

Um olhar eloqüente, raio voluptuoso que rompeu o enleio encantador de seu gesto, disse-me quanto havia nessa palavra. O meio de resistir a semelhante pedido? 


 

Recolhendo-me no dia seguinte, encontrei Sá que subia as escadas do hotel. 

 

— Que fim levaste anteontem, que ninguém te viu mais? 

 

— Voltei para casa. 

 

— Com Lúcia, já se sabe! Ainda estás muito atrasado, Paulo. Tens o amor no meio de uma claridade esplêndida, em volta de uma mesa bem servida, sobre macios tapetes; e preferes o amor bucólico ao relento e sobre a relva!... 

 

— Sou extremamente egoísta nesta matéria, meu amigo; só partilho o amor com a mulher que o sente. 

 

— São gostos; mas ficaste sabendo o que é Lúcia, e entretanto ela estava de mau humor. Num dos seus bons dias, não tem que invejar às cortesãs gregas ou às messalinas romanas. 

 

— Ela já contou-me tudo isso, Sá, respondi com impaciência. 

 

— Pudera não! São os seus brasões de glória; e por isso previno-te. É uma mulher que só pode ser apreciada de copo na mão e charuto na boca, depois de ter no estômago dois litros de champanha pelo menos. Nessas ocasiões torna-se sublime! Fora disso é excêntrica, estonteada e insuportável. Ninguém a compreende. 

 

— Eu compreendo-a perfeitamente. É uma moça gasta para os prazeres; ainda jovem no corpo, mas velha n'alma. Quando se atira a esses excessos de depravação, é estimulada pela esperança vã de um gozo que lhe foge; atordoa-se, embriaga-se e esquece um momento; depois vem a reação, o nojo das torpezas em que rojou, a irritabilidade de desejos que a devoram e que não pode satisfazer; nestas ocasiões tem suas veleidades de arrependimento; a consciência solta ainda um grito fraco; a cortesã revolta-se contra si mesma. Isso passa no dia seguinte. Eis o que é Lúcia; daqui a algum tempo o hábito fará dela o mesmo que tem feito das outras: envelhecerá o corpo, como já envelheceu a alma. 

 

Sá me ouviu rindo à socapa e com malícia: 

 

— Pois já que a compreendeste tão bem, explica-me isto. 

 

E apresentou-me uma carta aberta, que ao tirar do sobrescrito deixou cair algumas notas do banco. Era de Lúcia, e dizia: 

 

“O senhor enganou-se. Sou eu que lhe devo, e tanto, que não lho poderei pagar nunca.” 

 

Senti lendo esta carta um bem-estar inexprimível. 

 

—Que dizes? perguntou Sá.  

 

— Digo que ela fez o que devia.  

 

— Talvez por conselho teu? 

 

— Afirmo-te que não sabia disto; e que soubesse, bem se importa Lúcia com os meus conselhos. Seguiu o seu próprio impulso; arrependeu-se do que fez; e te agradece a lição. Nada mais natural. 

 

Sá olhou-me um instante: 

 

— Somos ambos moços, Paulo; porém sou mais velho três anos de idade, e oito anos de Rio de Janeiro. A corte é um país onde se envelhece depressa; por isso não te admires se falo como um homem de cinqüenta anos. Queres te divertir: é justo, é mesmo necessário; porém não tomes Lúcia ao sério. 

 

— Não te entendo! 

 

(continua...)

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