Por Machado de Assis (1900)
Para fazer alguma diversão aparece uma mulher que se traspassa tal qual a mais ínfima taberna. A diferença é que a taberna traspassa-se por meio de uma escritura e a mulher por meio de uma espada.
Antes a escritura.
Não vi ainda essa dama, que achou meio de fazer do próprio pescoço uma bainha e suicidar-se uma vez por noite, antes de tomar chá. Já vi um sujeito que engolia espadas; vi também uma cabeça que fazia discursos, dentro de um prato, em cima de uma mesa, no meio de uma sala. O segredo da cabeça descobri-o eu, no fim de dois minutos, não assim o do engole-espadas. Mas, tenho para mim, que ninguém pode engolir uma espada, nem quente nem fria (ele engolia-as em brasa), e concluo que algum segredo havia, menos acessível ao meu bestunto.
Não digo com isto que a dama da Rua da Carioca deixe de cravar efetivamente uma espada no pescoço. É mulher e basta. Há de ser ciumenta, e adquiriu essa prenda, na primeira cena de ciúmes que teve de representar. Quis matar-se sem morrer, e bastou o desejo para realizá-lo; de maneira que aquilo mesmo que me daria a morte, dá a essa senhora nada menos do que a vida. A razão da diferença pode ser que esteja na espada, mas eu antes creio que está no sexo.
Anda no Norte um colono, um homem que faz coisas espantosas. No Sul apareceu um menino-mulher.
Todos os prodígios vieram juntar-se à sombra das nossas palmeiras: é um rendez-vous das cousas extraordinárias .
Sem contar os tufões.
III
Falei no cemitério, sem dizer que a esta hora ou pouco mais tarde terá o leitor de ir à visitação dos defuntos.
A visitação dos defuntos é um bom costume católico; mas não há trigo sem joio; e a opinião do Sr. Artur Azevedo é que, na visitação, tudo é Joio sem trigo.
A sátira publicada por esse jovem escritor é um opúsculo, contendo umas quantas centenas de versos, fáceis e correntios, com muito pico, boa intenção, catanada cega e às vezes cega demais. A idéia do poeta é que há ostentação repreensível na demonstração de uma piedade ruidosa. Tem razão. Há excesso de vidrilhos e candelabros, de souvenirs e de inconsoláveis. Alguns quadros estão pintados com traços tão espantosos, que fazem recuar de horror. Será certo que se tomam nos cemitérios aquelas carraspanas que se comem aqueles camarões torrados? O poeta o diz; se o colorido pode estar carregado, o desenho deve ser fiel. Na verdade é de fazer pedir uma reforma nos costumes, ou a eliminação... dos vivos.
Onde o poeta me parece ter levado a sátira além da meta, é no que diz da viúva que, convulsa de dor pela morte do marido, vem a casar um ano depois, Hélas! Isso que lhe parece melancólico, e na verdade o é, não deixa de ser necessário e providencial. A culpa não é da viúva, é da lei que rege esta máquina, lei benéfica, tristemente benéfica mediante a qual a dor tem de acabar, como acaba o prazer como acaba tudo. E a natureza que sacrifica o indivíduo à espécie.
O poeta é favorável ao sistema de cremação. A cremação tem adversários, ainda fora da Igreja; e até agora não me parece essa imitação do antigo seja uma alta necessidade do século. Pode ser higiênico; mas no outro método parece haver mais piedade, e não sei se mais filosofia. Numa das portas do cemitério do Caju, há este lema Revertere ad locum tuum. Quando ali vou, não deixo de ler essas palavras, que resumem todo o resultado das labutações da vida. Pois bem; esse lugar teu e meu, é a terra donde viemos, para onde iremos todos, alguns palmos abaixo do solo, no repouso último e definitivo, enquanto a alma vai a outras regiões.
No entanto, parabéns ao poeta.
IV
Se eu disser que a vida é um meteoro o leitor pensará que vou escrever uma coluna de filosofia, e eu vou apenas noticiar-lhe o Meteoro, um jornal de oito páginas, que inscreve no programa: "O Meteoro não tem pretensões à duração".Bastam essas quatro palavras para ver que é jornal de espírito e senso. Geralmente, cada folha que aparece promete, pelo menos, três séculos e meio de existência, e uma regularidade cronométrica. O Meteoro nem promete durar, nem aparecer em dias certos. Virá quando puder vir.
Variado, gracioso, interessante, em alguns lugares, sério e até científico, o Meteoro deixa-se ler sem esforço nem enfado. Pelo contrário; lastima-se que seja meteoro e deseja-se-lhe um futuro de planeta, pelo menos que dure tanto como o planeta em que ele e nós habitamos.
Planeta meteoro, duração, tudo isso me traz à mente uma idéia de um sábio francês moderno. Por cálculos que fez, é opinião dele que de dez em dez mil anos, haverá na terra um dilúvio universal, ou pelo menos continental, por motivo do deslocamento dos oceanos, produzido pelo giro do planeta.
Um dilúvio periódico! Que será feito então da imortalidade das nossas obras? Salvo se puserem na arca um exemplar das de todos os poetas, músicos e artistas. Oh! mas que arca não será essa! Se não temesse uma vaia, diria que será arcabuz.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. História de quinze dias. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, s.d.