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#Crônicas#Literatura Brasileira

História de quinze dias

Por Machado de Assis (1900)

Manuel da Gata pode viver cem anos mais; civilmente está, não só morto, mas até sepultado no cemitério, cova número tantos. 

Quem nos afiança que isto não é uma trica eleitoral? 

Manuel da Gata morreu; tanto morreu, que foi enterrado. Se ele aparecer a reclamar o seu direito, dir-lhe ão que não é ele; que o Gata autêntico jaz na eternidade; que ele é um Gata apócrifo, uma contrafação do verdadeiro Gata, que Deus tem! 

Esboço apenas a idéia; os políticos que lhe dêem agora a cor e o movimento. 

III 

O que eu não esbocei, decerto, foi o jantar dado ao Blest Gana. Qual esboçar! 

Saiu-me acabado... dos dentes, acabado como ele merecia que fosse, por que era escolhido. 

A imprensa da capital brilhou; meteu-se à testa de uma idéia de simpatia, e levou-a por diante, mostrando se capaz de união e perseverança.

O jantar era o menos; o mais, o essencial era manifestar a um cavaleiro digno de todos os respeitos e afeições a saudade que ele ia deixar entre os brasileiros, e foi isso o que claramente e eloqüentemente disseram por parte da imprensa um jornalista militante, Quintino Bocaiúva, e um antigo jornalista, o Visconde do Rio Branco. 

Respeito as razões que teve o Chile para não fazer duas da única legação que tem para cá dos Andes, ficando exclusivamente no Rio de Janeiro o ministro que por tantos anos representou honestamente o seu país; mas sempre lhe digo que nos levou um amigo velho, que nos amava e a quem amávamos como ele merecia. 

Blest Gana costumava dizer, nas horas de bom humor, que era poeta de vocação e diplomata de ocasião. 

Era injusto consigo mesmo; a vocação era igual em ambos os ramos. Somente, a diplomacia abafava o poeta, que não podia acudir ao mesmo tempo a uma nota que passava e a uma estrofe que vinha do céu. 

Ainda se estivesse aqui só, vá; sempre lhe daríamos algum tempo de poetar. Mas ache um homem algum lazer poético andando a braços com a Patagônia e o Dr. Alsina! 

Sou amigo do ilustre chileno há dez anos; e ainda possuo e possuirei um retrato seu, com esta graciosa quadrinha: 

Verás en ese retrato 

De semejanza perfecta, 

a imagen de un mal poeta 

Y poco peor literato. 

Nem mau poeta, nem pior literato; excelente em ambas as necessidade política no-lo levasse. 

IV 

Sobre notas tivemos esta quinzena duas espécies, as falsas e as da ópera italiana,—um velho calembour, rafado, magro e decrépito que há de viver ainda muito tempo. Por quê? Porque acode logo à boca. 

Opera italiana é uma maneira de falar. Reuniram-se alguns artistas, que vivem há muito entre nós, e cantavam o Trovador; prometem cantar algumas óperas mais. 

São bons? Não sei, porque não os fui ainda ouvir; mas das notícia benignas dos jornais, concluo que,— um não cantou mal,—outro interpretou bem algumas passagens, o coro de mulheres esteve fraquinho e o de homens foi bem sofrível e não se achava mal ensaiado. 

São as próprias expressões de um dos mais competentes críticos. 

Que concluir depois, senão que o público fluminense é uma da melhores criaturas do mundo? 

Ele ouviu Stoltz, Lagrange, Tamberlick, Charton, Bouché e quase todas as celebridades de há anos. Benévolo e protetor do trabalho honesto, não quer saber se os atuais cantores lhe darão os gozos de outro tempo; acode a ampará-los e faz bem.

Balzac fala de um jogador inveterado e sem vintém que, presente nas casas de tavolagem, acompanhava mentalmente o destino de uma carta, parava nela um franco ideal, ganhava ou perdia, tomava nota das perdas e ganhos, e enchia a noite desse modo. 

O público fluminense é esse jogador, sem vintém ficou-lhe o vício musical sem os meios de o satisfazer. Vai à tavolagem, acompanha o destino de uma nota, reconhece às vezes que é falsa, mas troca-a mentalmente por outra que ouviu em 1853. 

Semelhante fenômeno não pertence à companhia dos ditos que representa no Teatro Imperial. O pior que acho na Companhia dos Fenômenos é o galicismo. O empresário quis provavelmente dizer —Companhia dos Prodígios, das Coisas Extraordinárias.Felizmente para ele, o público não estranhou o nome, e, se o empresário não tem por si os lexicógrafos, tem o sufrágio universal; isso lhe basta. 

É este porém um daqueles casos em que a eleição censitária é preferível. Que tais sejam os tais fenômenos ou prodígios, não sei, porque os não vi. E já o leitor concluirá daqui o valor de um cronista que pouco vê do que fala, uma espécie de urso que se não diverte.Que se não diverte? É uma maneira de entender assaz arriscada. 

(continua...)

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