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#Contos#Literatura Brasileira

História de uma lágrima

Por Machado de Assis (1867)

Não sabia que havia de dizer depois de ter pedido a água. O velho, apenas me viu sentado, tomou uma cadeira e sentou-se ao pé da janela. Os últimos raios do sol poente batiam-lhe na fronte encanecida e sulcada pelo sofrimento. Era venerável aquela figura tão humilde e tão resignada. 

Veio a água, bebi e dirigi-me ao dono da casa. 

— Obrigado, disse-lhe. Sou P... e moro... 

— É inútil dizer-me a casa, interrompeu Daniel; o meu reino já não é deste mundo. Entretanto agradeço-lhe... 

— Mas por que não é deste mundo? 

O velho franziu a testa e respondeu-me secamente: 

— Porque não é. 

Era impossível tirar-lhe mais uma palavra. 

Saí, mas levando a resolução de voltar outra vez até travar relações com o velho. Com efeito, cinco dias depois fui a Catumbi, e bati à porta de Daniel. Achei o velho com um livro na mão. 

Perguntou-me o que queria, e como eu lhe dissesse que era a pessoa que cinco dias antes estivera ali, respondeu-me que se lembrava e mandou-me sentar. — Quer água outra vez? disse ele sorrindo tristemente. 

— Não, não quero. Há de ter compreendido que eu não queria somente um copo d’água me pedir, mas não passe dos copos d’alma e parecia-me que era aquele olhar uma demonstração de sincero afeto. 

Unir os meus dias aos dela, foi o meu primeiro e maior sonho. Mas como? Pedi-la ao pai era o meio mais natural, mas repugnava-me, pois que, além de ser eu um simples empregado recebido em casa por prova de confiança, receava que se atribuísse ao meu ato intenções menos puras e confessáveis. 

Aqui entrava eu na luta suprema do coração e da consciência, do dever e do amor. Entendia que era decoro reduzir-me, mas esse silêncio era para mim o mais atroz de todos os suplícios. 

Os dias corriam assim, e eu, se não podia ainda aspirar à glória de possuir Elisa, gozava ao menos da felicidade de vê-la e viver nos olhos dela. 

Durou este estado sete meses. Disposto a sofrer em silêncio, resolvi por outro lado trabalhar muito, de modo a constituir um direito à mão da moça. 

Notava eu, porém, que Valadares, até então meu amigo confessado, redobrava de afeto e de atenções por mim. Nos meus sonhos de felicidade conjecturei que o negociante, tendo percebido a minha paixão, aprovava-a do fundo d’alma, e talvez mesmo por inspiração da filha. 

Um dia, era em outubro de 185... , estando no escritório a trabalhar recebi recado de Valadares para que fosse lá à casa à noitinha. 

Fui. 

Valadares estava no gabinete e mandou-me entrar. 

— Deram-lhe o recado a tempo? 

— Sim, senhor, respondi eu. 

— Bem. Sente-se. 

Puxei uma cadeira. Valadares limpou os óculos, e depois de algum silêncio perguntou me: 

— Não desconfia do motivo por que mandei chamá-lo? 

— Não, senhor. 

— É natural. Os velhos são mais perspicazes que os moços. O motivo é perguntar-lhe se não pensa em casar-se? 

Olhei para ele com um movimento de alegria; mas ao mesmo tempo cheio daquele medo que acompanha o coração quando está prestes a colher uma grande felicidade. — Não sei... respondi. 

— Não sabe? Responde como se fora uma moça. É verdade que a minha pergunta foi talvez mal cabida. Responda-me, então: Não ama? 

Depois de algum tempo respondi: 

— Sim... 

— Ama minha filha? 

— Perdão, mas é verdade. 

— Perdão de quê? São moços, podem amar-se; é amado? 

— Não sei. 

— Ah! mas eu creio que é. 

— Ela disse-lho? 

— Não, mas desconfio... 

— Se fosse verdade... 

— Há de ser. Pois se a ama e se quer desposá-la, nada de temores pueris, nem receios infundados. Eu não sou nenhum dragão. 

— Mas como poderei aspirar a tanta felicidade? 

— É boa! aspirando. Vou consultar Elisa. 

— Pois sim... 

— Vá para a sala. 

Saí entre a alegria e o receio. Se ela não me amasse? Se aquilo tudo fosse ilusão minha e do pai? Ao mesmo tempo pensava eu que era impossível que ambos nos enganássemos, e embalado por tão lisonjeiras esperanças aguardei a resposta definitiva da minha ventura. 

Daí a um quarto de hora entrava Valadares na sala com um sorriso animador nos lábios. Fui direito a ele. 

— Minha filha é sua. 

Elisa entrou na sala logo atrás do pai. 

— Ah! que felicidade! disse eu encaminhando-me para ela. 

(continua...)

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