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#Comédias#Literatura Brasileira

Hoje avental, amanhã luva

Por Machado de Assis (1858)

Cena II 

DURVAL e BENTO 


DURVAL 

Bravo! a pequena não é tola... tem mesmo muito espírito! Eu gosto dela, gosto! Mas é preciso dar-me ao respeito. (vai ao fundo e chama) Bento! (descendo) Ora depois de dois anos como virei encontrar isto? Sofia terá por mim a mesma queda? É isso o que vou sondar. É provável que nada perdesse dos antigos sentimentos. Oh! decerto! Vou começar por levá-la ao baile mascarado; há de aceitar, não pode deixar de aceitar! Então, Bento! mariola? 

BENTO 

(entrando com um jornal) 

Pronto. 

DURVAL 

Ainda agora! Tens um péssimo defeito para boleeiro, é não ouvir. 

BENTO 

Eu estava embebido com a interessante leitura do jornal do Comércio: ei-lo. Muito mudadas estão estas coisas por aqui! Não faz uma idéia! E a política? Esperam-se coisas terríveis do parlamento. 

DURVAL 

Não me masses, mariola! Vai abaixo ao carro e traz uma caixa de papelão que lá está... Anda! 

BENTO 

Sim, senhor; mas admira-me que V. S. não preste atenção ao estado das coisas. 

DURVAL 

Mas que tens tu com isso, tratante? 

BENTO 

Eu nada; mas creio que... 

DURVAL 

Salta lá para o carro, e traz a caixa depressa! 


Cena III 

DURVAL e ROSINHA 


DURVAL

Pedaço d'asno! Sempre a ler jornais; sempre a tagarelar sobre aquilo que menos lhe deve importar! (vendo Rosinha) Ah!... és tu? Então ela... (levanta-se) 

ROSINHA 

Está na outra sala à sua espera. 

DURVAL 

Bem, aí vou. (vai entrar e volta) Ah! recebe a caixa de papelão que trouxer meu boleeiro. 

ROSINHA 

Sim, senhor. 

DURVAL 

Com cuidado, meu colibri! 

ROSINHA 

Galante nome! Não será em seu coração que farei o meu ninho. 

DURVAL 

(à parte) 

Ah! é bem engraçada a rapariga! (vai-se) 


Cena IV 

ROSINHA, depois BENTO 


ROSINHA 

Muito bem, Sr. Durval. Então voltou ainda? É a hora de minha vingança. Há dois anos, tola como eu era, quiseste seduzir-me, perder-me, como a muitas outras! E como? mandando-me dinheiro... dinheiro! - Media as infâmias pela posição. Assentava de... Oh! mas deixa estar! vais pagar tudo... Gosto de ver essa gente que não enxerga sentimento nas pessoas de condição baixa... como se quem traz um avental, não pode também calçar uma luva! 

BENTO 

(traz uma caixa de papelão) 

Aqui está a caixa em questão... (põe a caixa sobre uma cadeira) Ora, viva! Esta caixa é de meu amo. 

ROSINHA 

Deixe-a ficar. 

BENTO 

(tirando o jornal do bolso) 

Fica entregue, não? Ora bem! Vou continuar a minha interessante leitura... Estou na gazetilha - Estou pasmado de ver como vão as coisas por aqui! - Vão a pior. Esta folha põe-me ao fato de grandes novidades. 

ROSINHA 

(sentando-se de costas para ele) 

Muito velhas para mim. 

BENTO 

(com desdém) 

Muito velhas? Concedo. Cá para mim têm toda a frescura da véspera.

ROSINHA 

(consigo) 

Quererá ficar? 

BENTO 

(sentando-se do outro lado) 

Ainda uma vista d'olhos! (abre o jornal) 

ROSINHA 

E então não se assentou? 

BENTO 

(lendo) 

Ainda um caso: "Ontem à noite desapareceu uma nédia e numerosa criação de aves domésticas. Não se pôde descobrir os ladrões, porque, desgraçadamente havia uma patrulha a dois passos dali." 

ROSINHA 

(levantando-se) 

Ora, que aborrecimento! 

BENTO 

(continuando) 

"Não é o primeiro caso que se dá nesta casa da rua dos Inválidos." (consigo) Como vai isto, meu Deus! 

ROSINHA 

(abrindo a caixa) 

Que belo dominó! 

BENTO 

(indo a ela) 

Não mexa! Creio que é para ir ao baile mascarado hoje... 

ROSINHA 

Ah!... (silêncio) Um baile... hei de ir também! 

BENTO 

Aonde? Ao baile? Ora esta! 

ROSINHA 

E por que não? 

BENTO 

Pode ser; contudo, quer vás, quer não vás, deixa-me ir acabar a minha leitura naquela sala de espera. 

ROSINHA 

Não... tenho uma coisa a tratar contigo. 

BENTO 

(lisonjeado) 

(continua...)

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