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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

O demônio das contradições absurdas reunira naquela alma de mulher formosa a vaidade mais descomedida, e a inveja mais violenta e cruel: Rosa julgava-se a mais encantadora e bela das mulheres e invejava de uma os cabelos loiros, de outra os olhos azuis, de sua mãe o vestido mais rico, de sua prima a voz de contralto, da amiga da infância uma prenda que lhe faltava, da noiva desconhecida a fortuna do casamento; invejosa, aborrecia todas as senhoras, vaidosa, queria ser amada, reqüestada por todos os homens; pela inveja era mordaz, maldizente, intrigante e aleivosa; pela vaidade era imprudente e louca, coração corrompido; não poupava sorrisos, nem olhar animador, nem palavras comprometedoras para prender um namorado: o que era em solteira prometia ser quando casada, namoradeira sempre; e pela combinação da vaidade e da inveja com a sua organização e suscetibilidade nervosas, havia de impor-se absoluta dominadora do marido, a quem não amaria como marido, e só olharia como escravo; frenética, doida em ímpetos de brutais ciúmes não derivados de amor, rancorosa, raivosa, dissipadora, sem consciência do dever, sacrificando por uma noite de baile um ano de pão para a família não hesitando em reduzir à miséria pai, e esposo, para alimentar o seu luxo, só pensando nos gozos da ostentação e de apaixonados cultos na terra, sem fé, sem religião, em moça era tentação infernal, velha havia de ser o desgosto de si própria degenerado em malvada ira contra todos, em vaidade condenada, em inveja corroída, em aborrecimento do mundo, e em ódio a todos elevado a expansões delirantes, capazes de transformar o lar doméstico em geena desesperadora.

Eu vi tudo isto, e ainda mais podia ver; porque longe ainda deviam estar os treze minutos que limitavam a visão do mal: podia e tinha mais que ver naquele coração desgraçado; mas não quis... tive horror de um ponto negro, que se ia esclarecer; tive horror... deixei cair a luneta, e amaldiçoando a inveja, e maldizendo da vaidade, fugi, correndo, precipitado para fora do terraço.

XIV

Na escada por onde me retirava para o seio do jardim quase que em impulso desastrado levei diante de mim um homem que também descia.

—Ah! senhor! exclamou ele voltando-se; não tem olhos ou vem doido?

—Perdão! respondi; exatamente não tenho olhos, porque sou míope e venho doido, porque encontrei no terraço um demônio com aparências de querubim.

—Pois quem é míope deve trazer óculos, e quem anda às voltas com o diabo deve procurar antes o inferno do que o Passeio Público!

—Mano! disse uma voz dulcíssima; o senhor se desculpou tão cortesmente, que o favor da sua amabilidade exige antes agradecimento, do que insistência na lembrança de um acaso que não teve más conseqüências.

—Obrigado, minha senhora, tornei logo, fixando a luneta; eu já nem me arrependo da minha imprudente precipitação; pois que a ela devo o encanto do perdão dado por voz tão melodiosa. Vi voltar-se para mim o lindo rosto de uma mulher que ostentava todo o esplendor da beleza na primavera dos anos; ela porém afrontou com tanta firmeza a fixidade da minha luneta, sorriu-se tão facilmente para mim, olhou-me com tão clara garridice, que antes de cinco minutos causava-me já tal desgosto que por castigo nem lhe descreverei as graças da figura.

Coitadinha! era uma menina, que talvez tivesse nascido com excelentes disposições, branda, condescendente, alegre, assim o devo supor, pois não creio que alguém nasça mau e pervertido; mas os pais entusiasmados pela beleza da filha, quiseram fazer dela singular maravilha, e a esqueceram cinco anos em um famoso colégio, cuja diretora, antiga florista de Paris, mudara de vocação com os enjôos da viagem transatlântica, e chegada ao Rio de Janeiro, anunciou prodígios de instrução e educação de meninas.

Nesse internato, onde as educandas de todas as idades se confundem e se acham em contato de dia e de noite com seus diversos costumes, com seus bons e maus instintos, com suas imaginações travessas, com suas malacias enfim, a pobre menina aprendeu demais o que devia ignorar, e quase nada o que precisava saber, e saiu do colégio, corando não por pudor virginal, mas por artifício de namoradeira, não conhecendo o valor de um beijo de seus lábios, nem o preço e a glória das virtudes, sem as quais a mulher se faz objeto de desprezo.

A leviandade do seu procedimento, a palavra desenvolta com que aturdia as amigas, a audácia com que se arriscava na sociedade, sacrificando todos os preceitos da prudência na liberdade exagerada que permitia a quantos lhe faziam a corte, que não era mais suficientemente respeitosa, autorizavam a maledicência que a feria com venenosas calúnias.

O aleive, a mentira a ultrajavam injustamente com suspeitas cruéis; não era calúnia porém, a fama da sordícia do seu coração.

(continua...)

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