Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
—Que homens! disse comigo mesmo; que gente desmoralizada, ardilosa e má! isto será talvez devido à influência do oficio: eles têm tantas vezes de procurar, de trabalhar em proveito de causas injustas, têm tantas vezes de contrariar a verdade, a justiça, a inocência, e o direito, que acabam por habituar-se ao dolo, à mentira, e ao sacrifício de todas as noções do dever. Há de ser assim, e nem pode ser de outro modo; porque a minha luneta mágica, que me faz ver no intimo dos corações, não me deixa cair em falsas apreciações.
—Mas todos eles maus e nem um único bom ao menos sofrível... é demais! não quero tão cedo continuar na descoberta de procurador; estou cansado de ver homens ruins; tratarei de consolar-me contemplando as graças do sexo encantador.
O último dos quatro mal afortunados dias fora de abrasadora calma; ao declinar da tarde dirigi-me ao Passeio Público.
Era a primeira vez que eu visitava, com a certeza de poder apreciar pela visão, esse pequeno, mas preciosíssimo jardim, onde a população da cidade pode ir gozar das árvores sombra e imperceptível respiração purificadora do ar, das flores encanto e perfumes, do mar o aspecto sublime, da terra limitada amostra da opulência majestosa da natureza do nosso Brasil, e das magias da tarde a suave frescura da viração.
Entrei no Passeio Público, e com apressada curiosidade fui vendo e gozando os deleitosos quadros da relva verdejante, dos grupos de arbustos graciosos, das árvores gigantes, das correntes d'água, das pontes, do outeiro dos jacarés, do terraço que se torna admirável pela vista das montanhas, dos rochedos e do mar, das fortalezas e das ilhas, das praias e da cidade formosa, mas recreio da cidade ofuscadora, a que demora fronteira.
Tudo isso era novo para mim, tudo, todas essas maravilhas da criação, todos esses belos testemunhos, todas essas obras do trabalho e da arte dos homens.
Eu devia esquecer-me de mim mesmo, embevecendo-me na contemplação de tantos prodígios; senti porém perto de mim, em torno de mim, passando junto de mim, indo e vindo, outra maravilha, que os homens vêem em toda parte, a todas as horas, e que nunca se satisfazem de admirar, e de amar; ouvi o ruído do arrastar de vestido, senti doces e sutis aromas deixados em leve rasto, tocaram-me os ouvidos os sons murmurantes de vozes argentinas, em uma palavra, senti a mulher e não vi mais nem serras, nem ondas, nem natureza grandiosa, nem arte nascente, nem florestas, nem cidades; senti perto de mim a mulher, e, olvidando tudo mais, voltei-me para contemplar a mulher.
XIII
Não era uma, eram cem as senhoras que passavam e que estavam no terraço.
Sentei-me em um dos bancos de mármore e deixei fixada a minha luneta.
Mais de vinte jovens senhoras me pareceram bonitas; defronte de mim porém estava sentada junto de um venerando ancião a mais formosa donzela.
Vestira-se de branco! tinha os cabelos negros, os olhos pretos, grandes e suavíssimos, eram olhos que não abrasavam, mas que inundavam de doçura, de luz branda, de enfeitiçadas delicias o coração do homem que lhe merecia um olhar; tinha no rosto a palidez enlevadora, que não indica sofrimento e atesta fina sensibilidade: o seu corpo era esbelto, e sua cintura de proporções delicadíssimas; trazia na mão pequenina e branca um leque de madrepérola com que se abanava distraída, absorta na contemplação do mar, ou divagando pelos mundos da imaginação; levantou-se a convite do ancião, sem dúvida seu pai, e com ele passeou ao longo do terraço; no fim de alguns minutos tornou a sentar-se no mesmo lugar em que estivera.
Era indizível a graça do seu andar tão suave, como o deslizar da nuvem pela face do horizonte.
A donzela pálida afigurou-se-me revelação de todas as perfeições humanas completando um portento de formosura. O rosto é o espelho da alma, a graça, dom do céu: a donzela pálida era necessariamente 0 símbolo do amor e da pureza dos anjos.
O meu coração palpitava transportado de admiração, e já dominado pelo poder miraculoso de tanta beleza.
—Como está hoje arrebatadora Dona Rosinha! disse um mancebo, falando a outro perto de mim.
Ela chamava-se Rosa; tinha o nome da rainha das flores.
—Está hoje como sempre; mas em que cismará ela?... provavelmente em coisa nenhuma: quer que se acredite que tem horas de embevecimento poético.
—Não; ela fez vinte anos ontem, e está sem dúvida cismando nos motivos por que ainda não se casou...
Revoltei-me contra os dois sacrílegos, apartei-me deles com sentimento de aversão.
Eu tinha observado a formosa jovem, lançando-lhe vistas repetidas, mas passageiras, receoso de sobressaltar o seu virginal pudor; não pude porém resistir por mais tempo ao ardente empenho da adoração da sua alma, e fitei nela a minha luneta por mais de três. minutos.
A donzela apercebeu-se da minha contemplação e por acaso ou de propósito deu a seu corpo flexível uma atitude de gracioso abandono, que me deixava apreciar todos os encantos da sua figura, inclinando langorosa a cabeça para o ombro de seu pai, e esquecendo os olhos no céu.
Ah! foi para mim um abismo de magias, um arrebatamento do espírito irresistível perdição de toda a minha liberdade durante três minutos. . .
E no fim de três minutos o coração da donzela se patenteou a meus olhos, e os segredos de sua alma se revelaram à visão do mal.
(continua...)