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#Relatos#Literatura Brasileira

História da Província de Santa Cruz

Por Pero de Magalhães Gândavo (1576)

Esta gente não tem entre si nenhum Rei, nem outro gênero de justiça, senão um principal em cada aldêa, que é como capitão, ao qual obedecem por vontade, e não por força. Quando este morre fica seu filho no mesmo lugar por sucessão, e não serve doutra cousa senão de ir com eles á guerra, e aconselha-los como se hão de haver na peleja; mas não castiga erros nem manda sobre eles cousa alguma contra suas vontades. E assim a guerra que agora têm uns contra outros não se levantou na terra por serem diferentes em Leis nem em costumes, nem por cobiça alguma de interesse: mas porque antigamente se algum acertava de matar outro, como ainda agora algumas vezes acontece (como eles sejam vingativos e vivam como digo absolutamente sem terem Superior algum a que obedeçam nem temam) os parentes do morto se conjuravam contra o matador e sua geração e se perseguiam com tal mortal ódio uns aos outros que daqui veio dividirem-se em diversos bandos, e ficarem inimigos da maneira que agora estão. E porque estas dissenções não fossem tanto por diante, determinaram atalhar a isto, usando do remedio seguinte, para por esta via se poderem melhor conservar na paz e se fazerem mais fortes contra seus inimigos. E é que quando tal caso acontece de um matar a outro, os mesmos parentes do matador fazem justiça dele e logo à vista de todos o afogam. E com isto os da parte do morto ficam satisfeitos e uns e outros permanecem em suas amizades como dantes. Porem como esta Lei seja voluntária e executada sem rigor nem obrigação de justiça alguma, não querem algum estar por ela, e daqui vem logo pelo mesmo caso a dividirem-se, e levantarem-se de parte a parte uns contra os outros, como já disse.

As povoações destes Índios são aldeias: cada uma delas tem sete, oito casas, as quais são mui compridas feitas á maneira de cordoarias ou tarracenas fabricadas somente de madeira e cobertas com palma ou com outras ervas do mato semelhantes; estão todas cheias de gente de uma parte e doutra e cada um por si tem a sua instancia, e sua rede armada, em que dorme e assim estão uns juntos dos outros por ordem, e pelo meio da casa fica um caminho aberto por onde todos se servem como dormitório, ou coxia de gale. Em cada casa destas vivem todos muito conformes, sem haver nunca entre eles nenhumas diferenças: antes são tão amigos uns dos outros, que o que é de um é de todos, e sempre de qualquer cousa que um coma por pequena que seja, todos os circunstantes hão de participar dela. Quando alguém os vai visitar a suas aldeias depois que se assenta costumam chegarem-se a ele algumas moças escapeladas, e recebem-no com grande pranto derramando muitas lagrimas perguntando-lhe (se é seu natural) onde andou, que trabalhos foram os que passou depois que daí se foi. Trazendo-lhe à memória muitos desastres que lhe poderão acontecer buscando em fim para isto as mais tristes e sentidas palavras que podem achar para provocarem o choro. E se é Português, maldizem a pouca dita de seus defuntos, pois foram tão mal afortunados que não alcançaram ver gente tão valorosa e luzida, como são os Portugueses, de cuja terra todas as boas cousas lhes vêm, nomeando algumas que eles têm em muita estima. E este recebimento que digo é tão usado entre eles, que nunca ou de maravilha deixam de o fazer, salvo quando reinam alguma malícia contra os que os vão visitar, e lhes querem fazer alguma traição

As invenções e galantarias de que usam, são trazerem alguns o beiço de baixo furado, e uma pedra comprida metida dentro do buraco. Outros ha que trazem o rosto todo cheio de buracos e de pedras, e assim parecem mui feios e disformes; e isto lhes fazem em quanto são meninos.

Tão bem costumam todos arrancarem a barba, e não consentem nenhum cabelo em parte alguma de seu corpo salvo na cabeça, ainda que ao redor dela por baixo tudo arrancam. As fêmeas prezam-se muito de seus cabelos e trazem-nos mui compridos, limpos e penteados, e as mais delas enastrados. E assim tão bem machos como fêmeas costumam tingir-se algumas vezes com o sumo de um certo pomo que se chama jenipapo que é verde quando se pisa e depois que o põem no corpo e se enxuga, fica mui negro e por muito que se lave não se tira senão aos nove dias.

As mulheres com que costumam casar são suas sobrinhas, filhas de seus irmãos ou irmãs: estas têm por legitimas, e verdadeiras mulheres, e não lhas podem negar seus pais, nem outra pessoa alguma pode casar com elas, senão os tios. Não fazem nenhumas cerimonias em seus casamentos, nem usam de mais neste acto que de levar cada um sua mulher para si como chega a uma certa idade, porque esperam que serão então de quatorze ou quinze anos pouco mais ou menos. Alguns deles têm tres ou quatro mulheres: a primeira têm em muita estima e fazem mais caso que das outras. E isto pela maior parte se acha nos principais que o tem por estado e por honra e prezam-se muito de se diferençar nisto dos outros.

Algumas Índias ha que tão bem entre eles determinam de ser castas, as quais não conhecem homem algum de nenhuma qualidade, nem o consentirão ainda que por isso as matem. Estas deixam todo o exercício de mulheres e imitam os homens e seguem seus ofícios, como senão fossem fêmeas. Trazem os cabelos cortados da mesma maneira que os machos, e vão á guerra com seus arcos e frechas, e á caça perseverando sempre na companhia dos homens, e cada uma tem mulher que a serve, com quem diz que é casada, e assim se comunicam e conversão como marido e mulher.

(continua...)

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