Por José de Alencar (1862)
— Mas o senhor não sabe então?... perguntou erguendo os grandes olhos límpidos e fulgurantes.
— Sei tudo, mas não o quero saber; e menos de tua boca! Não sou para ti mais do que os outros; não te mereço nada; porém deixa-me a venda sobre os olhos, eu te peço! Sinto-me feliz com ela.
— O que não o impediria de ver-me com indiferença passar dos seus braços aos de qualquer destes homens, daquele velho por exemplo.
— Serias capaz de fazer isso, Lúcia?
— O que tenho eu feito toda a minha vida? Logo ou alguns dias depois... Questão de tempo!
— Não falas seriamente! É impossível!
— Aborreço o fingimento: não gosto de passar pelo que não sou. É tão ridícula essa comédia do amor, que representam os velhos e os meninos!
O escárnio da repetição de palavras, que eu lhe dissera na véspera, esmagou-me.
— Estás tão calada agora, Lúcia! exclamou o Couto.
— Paulo está naturalmente fazendo-lhe a corte! replicou Sá rindo.
— E por isso Lúcifer desapareceu do horizonte!
— Lúcifer espera o reino das trevas! O Sr. Paulo fazendo-me a corte!... Seria soberanamente ridículo para nós ambos!
— É a segunda vez que repetes uma palavra dita por mim num momento de despeito! Se te ofendi, perdoa-me, murmurei à meia voz.
— Gostei da frase!
Estourava o champanha, fumegando nos cálices de cristal. Foi o sinal de um concerto infernal de saúdes, hurras e cantigas descabeladas, com o acompanhamento de uma orquestra de copos e pratos; no meio do rumor distinguia-se a voz de falsete do Couto, e a risada estridente de Lúcia, cujas volatas tinham o timbre metálico do canto da araponga entre os murmúrios da floresta. Apenas começaram as primeiras explosões produzidas pelos vapores do vinho aristocrático, os criados saíram batendo a porta do serviço, que fechou-se interiormente.
Estávamos sós; a pêndula marcava uma hora e quarenta minutos; pouco tardaria o momento solene que o dono da casa, novo Erasmo, destinara para a inauguração da loucura.
— Meus senhores, confesso que a minha vaidade de anfitrião, amador das artes, está um tanto humilhada! Ainda não disseram uma palavra a respeito dos meus quadros!
— De quem é a culpa? A magnificência da ceia e a amabilidade do hóspede não consentiram que levantássemos os olhos.
— Mas são realmente soberbas estas pinturas!... exclamou o Couto. Que posições admiráveis!... Ressuscitariam um morto. Apenas noto a ausência absoluta do sexo feio.
— Isso prova o bom gosto do pintor.
— E o mau gosto das filhas de Lesbos.
— Então acham essas mulheres admiráveis?
— Provocantes!
— Arrebatadoras!...
— E tu, Paulo, que dizes?
— Digo que vi ontem um quadro deste gênero, que eu não trocaria por todas as tuas pinturas! Era uma mulher; mas as formas palpitavam; a carne latejava sob os olhos que a devoravam; os lábios comiam de beijos a vítima que eles provocavam; e entre a cútis transparente corria o sangue, que se precipitava do coração espadanando em cascatas!
— Sublime! A descrição é digna do quadro... que eu não vi! disse o Rochinha.
— Onde descobriste essa maravilha?
— É meu segredo.
— Nem se pode saber o nome do artista, Sr. Silva?
— Não adivinharam ainda!
— Será Rafael?
— É um Ticiano póstumo!
— Ou algum gênio desconhecido?
— Enganaram-se: é um artista de todos os tempos e de todos os países; é o artista divino que fez as flores, as estrelas e as mulheres!
— Ah! neste gênero de pintura tenho visto o melhor que é possível!
— Eu aposto, disse Lúcia, que o Sr. Silva, como os poetas, embelezou o seu quadro. Viu o que sentia; mas não o que era.
— Que importa! É outra ilusão minha que desejo guardar!
— Talvez não a guarde por muito tempo...
(continua...)
ALENCAR, José de. Lucíola. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2047 . Acesso em: 21 jan. 2026.