Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

O velho Nunes sorriu-se agradavelmente, com expansão de amizade, apertando-me as mãos, e desfazendo-se em felicitações: a alegria radiava-lhe nos olhos e no rosto. Que excelente e nobre homem!... que diferença entre ele e os meus três parentes!...

No fim de alguns minutos em que me pareceu refletir, disse me:

—Eu creio que nasci predestinado para lhe ser útil.

—Já lhe devo muito.

—E vai dever-me mais; o seu primeiro projeto e justo; mas arriscado. . .

—Por quê?

—Mal pode calcular como são alicantineiros, palros e vorazes quase todos os procuradores e solicitadores que por aí andam, e receio muito vê-lo cair nas garras de algum desses trapaceiros.

—Pensa? ..

—Mas ainda bem que eu sou também solicitador no foro da corte, e tenho orgulho da reputação de probidade e de dedicação, que ninguém ousa disputar-me; o trabalho me sobra, e o tempo me falta; mas para servi-lo, ofereço-me de corpo e alma para concluir em poucos dias todos os negócios que tem com seu irmão e sem escândalo nem desgosto.

—Oh! meu bom amigo!

—Pode chamar-me assim; tenho queda para o senhor; amanhã há de jantar comigo: quero apresentar-lhe minha mulher que é uma santa e minha filha que é uma flor do paraíso

Senti-me cativo do honrado e generoso velho e para melhor apreciá-lo, fixei a luneta, ele porém voltou o rosto imediatamente; três, cinco, dez vezes repeti a manobra, e o Sr. Nunes outras tantas fugiu com o semblante, e por fim ao sair o conselho da sala secreta, mudou o velho de cadeira e sentou-se exatamente diante de mim, dando-me portanto as costas.

Admirei tanta modéstia, e ensaiando uma nova experiência, pus a luneta em ação e olhei o velho Nunes pelas costas durante sete minutos.

Oh! luneta sublime! não há recurso que possa anular a tua força!

Eu vi perfeitamente o homem.

Misericórdia! que enormíssimo tratante é o Sr. velho Nunes! — afável, obsequiador, loquaz, insinuante, sabe um por um todos os segredos das traficâncias que desmoralizam o povo: tem falsificado documentos, rasgado e sumido folhas de autos, já furtou a firma de um juiz, já solicitou pró e contra em mais de vinte causas, tem comprometido interesses, demolido fortunas, e ainda não entrou na casa de correção!... aluga-se, quando não lhe convém vender-se, e vende-se apenas lhe chegam ao preço; tem de seu mais de cem contos de réis torpemente adquiridos, e é usurário de profissão; surrava os escravos sem piedade, vendeu-os todos há poucos meses, arremata outros em praça para vendê-los em breve prazo, e é entusiasta da emancipação; é cabalista admirável de eleições, tem sido eleitor por todos os partidos, e votado como eleitor nos candidatos que lhe compraram os votos por dinheiro, e por transações que valem dinheiro. Exalta os gozos suaves e a santidade do lar doméstico, e no lar doméstico dá pancadas na mulher, que o teme e que o detesta, e vive em guerra aberta com a filha porque ela em doces e costuras que faz ganha somente bastante para se vestir.

E, o que é mais, eu me vi, eu me encontrei e me reconheci nos cálculos da mente do velho Nunes!... elo sabe melhor do que eu a quanto chega a minha fortuna, planeja explorá-la em seu proveito, desacreditar, infamar meu irmão, ou negociar com ele em meu prejuízo, e finalmente concebeu a idéia de casar-me com sua filha!!!

Tive horror do execrável Nunes, a quem mais nunca darei o nome de velho amigo; senti-me, porém, desconsolado e triste, descobrindo tanta malvadeza, em quem supunha tanta bondade e virtude.

É ainda uma desilusão! é ainda um turvo desengano a arrastar-me à desconfiança e talvez em breve ao aborrecimento dos homens.

Sai do júri mais sombrio e abatido do que os réus que por ele acabavam de ser condenados.



XII

É claro que não procurei mais encontrar-me com o velho Nunes, e aproveitando a lição desse novo desengano, compreendi que me cumpria ser ainda muito mais cauteloso na escolha do meu procurador, e principalmente na eleição da minha noiva.

Empreguei quatro dias no empenho da descoberta de um procurador, como desejava, e perdi o meu tempo: estudei com a minha luneta magica nada menos que trinta e tantos procuradores e achei-me sempre de mal a pior! pareceram-me todos eles verdadeiros procuradores do epigrama de Bocage, os que se diziam melhores e passavam por mais hábeis e dedicados, eram os piores pela mais refinada arteirice, e profunda malícia.

No fim dos quatro dias senti-me tonto, aborrecido, desesperado, e com a convicção tristíssima, de que não encontraria procurador, que pudesse merecer a minha confiança.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1415161718...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →