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#Relatos#Literatura Brasileira

História da Província de Santa Cruz

Por Pero de Magalhães Gândavo (1576)

E com este mancebo se haver mostrado neste caso tão animoso como se mostrou, e ser tido na terra por muito esforçado saiu todavia desta batalha tão sem alento e com a visão deste medonho animal ficou tão perturbado e suspenso, que perguntando-lhe o pai, que era o que lhe havia sucedido não lhe pôde responder, e assim como assombrado sem falar cousa alguma per um grande espaço. O retrato deste monstro, é este que no fim do presente capitulo se mostra, tirado pelo natural. Era quinze palmos de comprido e semeado de cabelos pelo corpo, e no focinho tinha umas sedas mui grandes como bigodes.

Os Índios da terra lhe chamam em sua língua Hipupiàra que quer dizer demônio d'água. Alguns como este se viram já nestas partes, mas acham-se raramente. E assim tão bem deve de haver outros muitos monstros de diversos pareceres, que no abismo desse largo e espantoso mar se escondem, de não menos estranheza e admiração; e tudo se pode crer, por difícil que pareça: porque os segredos da natureza não foram revelados todos ao homem, para que com razão possa negar, e ter por impossível as cousas que não viu nem de que nunca teve noticia.

CAPÍTULO X - Do Gentil que há nesta Província, da condição e costumes dele, e de como se governam na paz.

Já que tratamos da terra e das cousas que nela foram criadas para o homem, razão parece que demos aqui noticia dos naturais dela: a qual posto que não seja de todos em geral será especialmente daqueles que habitam pela costa, e em partes pelo sertão dentro muitas léguas, com que temos comunicação. Os quais ainda que estejam divisos, e haja entre eles diversos nomes de nações, todavia na semelhança, condição, costumes, e ritos gentílicos, todos são uns; e se nalguma maneira diferem nesta parte, é tão pouco, que se não pode fazer caso disso, nem particularizar cousas semelhantes entre outras mais notáveis, que todos geralmente seguem, como logo adiante direi.

Estes Índios são de cor baça, e cabelo corredio; tem o rosto amassado, e algumas feições dele á maneira de Chins. Pela maior parte são bem dispostos, rijos e de boa estatura; gente mui esforçada, e que estima pouco morrer, temerária na guerra, e de muito pouco consideração: são desagradecidos em Grã maneira, e mui desumanos e cruéis, inclinados a pelejar, e vingativos por extremo. Vivem todos mui descansados sem terem outros pensamentos senão de comer, beber, e matar gente, e por isso engordam muito, mas com qualquer desgosto pelo conseguinte tornam a emagrecer, e muitas vezes pode deles tanto a imaginação que se algum deseja a morte, ou alguém lhe mete em cabeça que ha de morrer tal dia ou tal noite não passa daquele termo que não morra. São mui inconstantes e mudáveis: crêem de ligeiro tudo aquilo que lhes persuadem por dificultoso e impossível que seja, e com qualquer dissuasão facilmente o tornam logo a negar. São mui desonestos e dados á sensualidade, e assim se entregam aos vícios como se neles não houvera razão de homens: ainda que todavia em seu ajuntamento os machos e fêmeas têm o devido resguardo, e nisto mostram ter alguma vergonha.

A língua de que usam, toda pela costa, é uma: ainda que em certos vocábulos difere nalgumas partes; mas não de maneira que se deixem uns aos outros de entender: e isto até altura de vinte e sete grãos, que daí por diante ha outra gentilidade, de que nós não temos tanta noticia, que falam já outra língua diferente. Esta de que trato, que é ageral pela costa, é mui branda, e a qualquer nação facil de tomar. Alguns vocábulos ha nela de que não usam senão as fêmeas, e outros que não servem senão para os machos: carece de três letras, convém a saber, não se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna de espanto porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei, e desta maneira vivem desordenadamente sem terem alem disto conta, nem peso, nem medido.

Não adoram a cousa alguma, nem têm para si que ha depois da morte gloria para os bons e pena para os mãos, e o que sentem da imortalidade d’alma não é mais que terem para si que seus defuntos andam na outra vida feridos, despedaçados, ou de qualquer maneira que acabaram nesta. E quando algum morre, costumam enterra-lo em uma cova assentado sobre os pés com sua rede às costa que em vida lhe servia de cama. E logo pelos primeiros dias põem-lhe seus parentes de comer em cima da cova e tão bem alguns lho costumam meter dentro quando o enterram, e totalmente cuidam que comem e dormem na rede que tem consigo na mesma cova.

(continua...)

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