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#Crônicas#Literatura Brasileira

História de quinze dias

Por Machado de Assis (1900)

Sobre isto de voltar inteiro, dou meus parabéns aos deputados da assembléia provincial, que puderam regressar intactos depois de 72 horas de discussão. 

Um ponto obscuro em todos os artigos e explicações, notícias e comentários, é se o presidente da assembléia foi o mesmo em todos os três dias e noites. Se foi, deve Ter o mesmo privilégio daquele gigante da fábula, que dormia com cinqüenta olhos enquanto velava com os outros cinqüenta. Eram cinqüenta ou mais? Não estou certo no ponto. Do que estou certo é que ele repartia os olhos, uns para dormir, outros para velar, como nós fazemos com os urbanos; velam estes enquanto caímos nos braços de Morfeu... 

Pois é verdade; setenta e duas horas de sessão. Esticando um pouco ia até a Páscoa. Cada um dos deputados, ao cabo desta longa sessão, parecia um Epimênides, ao voltar à rua do Ouvidor; tudo tinha ar de novo, de desconhecido, de outro século. 

Felizmente acabou. 

Não acabarei sem transcrever nesta coluna um artiguinho, que li nos jornais de terça-feira : 

Duas das mais grosseiras e desmoralizadas criaturas têm freqüentado os bailes, causando os mais desagradáveis episódios aos que têm tido a infelicidade de aproximar-se-lhes.

Essas duas filhas de Eva acharam-se anteontem no teatro D. Pedro II vestidas en femme de la hâlle ( filha da Madame Angot), e hoje também dizem que lá se acharão... 

Seria bom que o empresário tivesse algum fiscal encarregado de vigiá-las, para evitar incidentes tais como se deram no Domingo passado. 

Ó isca! Ó tempos! Ó costumes! 

[ 9 ] 

[15 de março ] 

MAIS DIA menos dia, demito-me deste lugar. Um historiador de quinzena, que passa os dias no fundo de um gabinete escuro e solitário, que não vai às touradas, às câmaras, a Rua do Ouvidor, um historiador assim é um puro contador de histórias. 

E repare o leitor como a língua portuguesa é engenhosa. Um contador de histórias é justamente o contrário de um historiador,não sendo um historiador, afinal de contas, mais do que um contador de histórias. Por que essa diferença Simples, leitor, nada mais simples. O historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado, humanista; o contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio, e entende que contar o que se passou é só fantasiar. 

O certo é que se eu quiser dar uma descrição verídica da tourada de domingo passado, não poderei, porque não a vi. 

Não sei se já disse alguma vez que prefiro comer o boi a vê-lo na praça. 

Não sou homem de touradas; e se é preciso dizer tudo, detesto-as. Um amigo costuma dizer-me: — Mas já as viste? 

— Nunca! 

— E julgas do que nunca viste? 

Respondo a este amigo, lógico mas inadvertido, que eu não preciso ver a guerra para detestá-la, que nunca fui ao xilindró, e todavia não o estimo. Há coisas que se prejulgam, e as touradas estão nesse caso. 

E querem saber por que detesto as touradas? Pensam que é por causa do homem? Ixe! é por causa do boi, unicamente do boi. Eu sou sócio (sentimentalmente falando) de todas as sociedades protetoras dos animais. O primeiro homem que se lembrou de criar uma sociedade protetora dos animais lavrou um grande tento em favor da humanidade; mostrou que este galo sem penas de Platão pode comer os outros galos seus colegas, mas não os quer afligir nem mortificar.Não digo que façamos nesta Corte uma sociedade protetora de animais; seria perder tempo. Em primeiro lugar, porque as ações não dariam dividendo, e ações que não dão dividendo... Em segundo lugar, haveria logo contra a sociedade uma confederação de carroceiros e brigadores de galos. Em último lugar, era ridículo. Pobre iniciador! Já estou a ver-lhe a cara larga e amarela, com que havia de ficar, quando visse o efeito da proposta! Pobre iniciador! Interessar-se por um burro! Naturalmente são primos? — Não; é uma maneira de chamar a atenção sobre si.—Há de ver que quer ser vereador da Câmara: está-se fazendo conhecido. — Um charlatão. 

Pobre iniciador! 

II 

Touradas e caridade pareciam ser duas coisas pouco compatíveis. 

Pois não o foram esta semana última, fez-se uma corrida de touros com o fim de beneficiar necessitados. 

O pessoal era de amadores, uns já peritos; outros novos; mas galhardos todos, e moços de fino trato. A concorrência, se não foi extraordinária, foi assim bastante numerosa. 

E não a censuro, não; a caridade fazia dispensar a feroci .. não, digo ferocidade; mas contarei uma pequena anedota.Conversava eu há dias com um amigo, grande amador de touradas, e homem de espírito, s'il en fut.—Não imagines que são touradas como as de Espanha. As de Espanha são bárbaras, cruéis. 

Estas não têm nada disso. 

— E entretanto... 

(continua...)

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