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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

A mesa do almoço apareci com a minha luneta, e causei surpresa; disse que auxiliado pelo poderoso vidro, podia ver melhor do que dantes, embora menos do que desejava; mas acabando de almoçar e usando da luneta, servi-me de um palito sem pedir que mo dessem.

Diante dessa prova evidente de que já me era fácil distinguir um palito, o mano Américo abriu a boca espantado, a tia Domingas benzeu-se, e a prima Anica consertou com faceirice as dobras e o laço do seu fichu que aliás não tinham desconserto algum.

Enfim meu irmão e minha prima deram-me uns parabéns que me pareceram muito dessaboridos; minha tia disse: "Deus te abençoe para que não peques pelos olhos!" e eu despedi-me e fui para o júri.



X

Nas ruas vi tudo de passagem e frui mil gozos novos para mim com a simples visão das aparências; mas chegando à sala do júri e tomando a minha cadeira, dispus-me a não poupar o meu privilégio da visão do mal.

Nesse dia não sai sorteado, embora se formassem dois conselhos que consecutivamente julgaram o primeiro um, o segundo dois réus.

Em qualquer dos três réus encontrei um coração negro, um homem-fera; do primeiro julgado, porém, não lhe descobri na consciência indicio algum do crime de que o acusavam, e foi exatamente contra esse que mais vigorosa se desencadeou a palavra do acusador.

Fitei minha luneta no advogado que assim falava por parte do autor, e no fim de breves minutos reconheci que ele estava convencido da inocência do réu que acusava.

Examinei no segundo processo a consciência do eloqüente defensor dos dois réus justamente processados por crime de homicídio, e vi que ele fazia prodígios de habilidade sofista para iludir os jurados. e levá-los a obrigar injusta sentença de absolvição.

Arredei de meus olhos a luneta que acabava de fazer-me descrer do sacerdócio da advocacia.

—Como é, perguntei a mim mesmo; como é que um advogado ostenta a mentira e o dolo, rebaixando uma das mais nobres e esplêndidas profissões, sustentando, demonstrando o contrário do que pensa e do que sente, para ganhar a soma, porque contratou a acusação ou a defesa?... —Como é que se abate assim o talento, e se aniquilam as grandes noções do dever?

Um advogado era para mim a luz do direito, o escudo da inocência, o campeão da lei; era a Sabedoria a pleitear pela justiça; como pois um advogado se anima a mentir diante de Deus e dos homens, a malfazer a sociedade, esforçando-se com todo o poder das suas faculdades para que se julgue inocente e puro um assassino conhecido e provado, um malvado que ele sabe que é assassino?... e, mil vezes ainda pior, como é que outro advogado profundamente convencido de que o réu não cometeu o crime que lhe imputam, ousa ir acusá-lo, ousa ir pedir que o encarcerem, que o condenem a trabalhos forçados?...

E além da mentira o dolo!... o dolo; porque tais advogados se empenham em enganar os juizes de fato, tecem ardis, desfiguram os atos praticados, enredam e perturbam as testemunhas, tornam o processo caos com o fim de arrastar o júri a decisões contrárias à verdade e à justiça e só em proveito dos clientes que os têm contratado para acusar ou defender?...

E do mesmo modo que praticam em questões criminais, que afetam a moralidade e a segurança da sociedade, e a liberdade e aos direitos individuais, hão de também praticar nas questões que se referem à propriedade!... haverá pois advogado que convicto da infame velhacaria do seu cliente, ainda assim lhe alague a sua banca, que devia ser altar nobilíssimo e ponha em tributo os recursos da sua ciência para ajudar o cliente a roubar o alheio?!!!

Ah! visão do mal que me estás levando a descrer da humanidade! tu me serás talvez fatal; mas eu te quero, e não te dispenso mais, porque tu és luz, embora sejas luz do inferno.



XI

Entre o primeiro e o segundo processo tivemos uma hora de folga, que tanto durou o conselho secreto.

O meu velho amigo, cujo nome quero agora declinar, o Sr. Nunes, veio sentar-se junto de mim: apertei-lhe a mão com força, prazer e confiança; pois era a ele que eu devia o ter ido à casa do Reis, onde encontrei o maravilhoso armênio.

—Então? perguntou-me o velho; que tal achou a luneta?... estou ansioso por sabê-lo; não dormi um instante toda a noite; que me diz da luneta?

—É admirável, meu amigo.

—É, na verdade mágica?

—Estupendamente mágica.

—Conte-me alguma coisa...

Contei-lhe tudo.

Cometi um erro, sendo completamente franco na exposição de todas as minhas experiências, e outro, ainda maior, na confidência dos meus dois projetos, o de encarregar a um procurador hábil o arranjo dos meus negócios com o mano Américo, e o de criar para mim uma família, casando com uma jovem formosa e pura.

(continua...)

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