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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

— Que bicho é esse? 

 

— É uma infusão de gengibre fervida em aguardente de trinta e seis graus, com uma garrafa de marasquino. 

 

— Deliciosa bebida! disse Lúcia. Não leva também algumas gotas de chumbo derretido? 

 

— Finalmente, meus senhores, as duas horas em ponto, imola-se a razão no fundo das garrafas. 

 

— Bravo! gritaram as mulheres em coro. 

 

— Aceito por unanimidade! 

 

— Posso imolar a minha desde já, gritou o Couto. 

 

— Não admito! Requeiro que se respeitem as cãs. . . 

 

— E a inocência dos criados. 

 

— À vista das considerações devidas ao sexo, cedo! 

 

— É melhor; mesmo porque seria difícil imolar o que não existe. 

 

— Procedamos em regra. Às duas horas portanto pára-se a pêndula. Abolição completa da razão, do tempo, da luz; e inauguração solene do reinado das trevas e da loucura. Até lá liberdade completa dentro dos limites da decência; tudo quanto possa alegrar, como o gracejo, a cantiga, o brinde ou o discurso, é permitido; salvo o direito ao respeitável público feminino e masculino de patear as sensaborias. 

 

— Nota do taquígrafo. Numerosos apoiados; o orador é cumprimentado. 

 

E o Couto para realizar o seu dito propôs a saúde de Sum, e acompanhou-a com um discurso recheado de disparates, interrompido a cada palavra pela algazarra dos estouros báquicos. 

 

Não tomei nem uma parte nesse primeiro tiroteio; Lúcia apenas dissera uma palavra. Ela estava visivelmente contrariada; por momentos caía em profunda distração, de que eu a tirava a custo; depois tomava-se de um estouvamento e sofreguidão que não era natural. Uma vez levantado o cálice, a contração muscular foi tão violenta que o cristal espedaçou-se entre as falanges delicadas. Tinha-se ferido, e para estancar o sangue, mergulhou o dedo no meu copo cheio de Sauterne: o áureo licor enrubesceu; e eu esgotei-o até a última gota num assomo de galanteio romântico. 

 

Lúcia acompanhou o meu movimento com um olhar tão cheio do que olhava, como se eu lhe bebera a própria vida nessas gotas tintas de seu sangue. 

 

— Se o bebesse todo!... balbuciou. 

 

— Tu morrias, Lúcia! respondi sorrindo. 

 

— Eu... viveria; e o resto seria pasto dos vermes, como foi pasto dos homens. 

 

Semelhante à mosca importuna que se afoga no vinho, a palavra lúgubre afogou-se no entusiasmo que começava a brilhar em todas as frontes. 

 

Lúcia apanhou no ar o primeiro dito que passava para fazê-lo ressaltar com uma das réplicas vivaces, titilantes de sarcasmo e ironia, que em certos momentos fervilhavam de seus lábios. Era impossível segui-la nesse brilhante rasto de seu espírito.  


VII 

 

— Sr. Couto, dizia Sá, recomendo-lhe estas perdizes! Estão saturadas de trufas e castanhas. 

 

— Obrigado; é muito forte para mim. Daqui a dez anos, não digo que não. 

 

— Passa-me as perdizes! exclamou o Rochinha piscando os olhos com certa malícia. 

 

— Por favor, Sr. Couto, disse Lúcia rindo, empreste ao Sr. Rocha os seus cabelos brancos! Por esta noite ao menos... 

 

— Oh! já não são poucos os que eu tenho. 

 

— Mas não são bastantes, Rochinha, atalhou Sá. Lúcia tem razão. 

 

Esta continuou: 

 

— Vou fazer uma proposta. 

 

— Muito bem; atenção em ambas as colunas, gritou o velho Couto abrindo os braços. 

 

— Proponho...  

 

— A minha saúde?  

 

— Um coro com acompanhamento de pratos? 

 

— Não! não! Se continuam, subo à rampa! 

 

— Silêncio! 

 

— Proponho que esta noite o Sr. Couto seja tratado por Coutozinho, que é mais terno; e o Sr. Rochinha sem o embirrante diminutivo, que lhe dá uns ares de menino de colégio!... 

 

Houve explosão de gritos e aplausos. 

 

— Acrescenta, disse o Sá, que Nina chamará o Sr. Couto — nhonhô, e Laura o Rochinha  papai. 

 

— Não admito! O incesto é contra a moral, gritou Lúcia. 

 

— Como trata-se de nomes, eu também proponho uma mudança, bocejou o Rochinha. Em lugar de Lúcia diga-se Lúcifer.  

 

(continua...)

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