Por Machado de Assis (1900)
Faziam-se e fazem-se doutores na ausência, in absentia, mediante certa quantia com que se manda buscar o diploma à Alemanha. Agora temos as digestões na ausência, e pela regra de que a civilização não pára nunca. virá breve, não um Vindimila, mas um Trintimila ou um Centimila, que nos dê o meio de pensar sem cérebro. Nesse dia o vinho digestivo cederá o passo ao vinho reflexivo, e teremos acabado a criação. porque estará dado o último golpe no Criador.
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[15 fevereiro]
I
O CARNAVAL morreu, viva a quaresma!
Quando digo que o carnaval morreu apenas me refiro ao fato de haverem passado os seus três dias; não digo que o carnaval espichasse a canela.
Se o dissesse, errava; o carnaval não morreu; está apenas moribundo. Quem pensaria que esse jovem de 1854, tão cheio de vida. tão lépido, tão brilhante, havia de acabar vinte anos depois, como o Visconde de Bragellone, e acabar sem necrológio, nem acompanhamento?
Veio do limão-de-cheiro e do polvilho: volta para o polvilho e o limão-de-cheiro. Quia pulvi est. Morre triste, entre uma bisnaga e um princês, ao som de uma charamela de folha-de-flandres, descorado, estafado, desenganado. Pobre rapaz! Era forte, quando nasceu, rechonchudo, travesso, um pouco respondão, mas gracioso. Assim viveu; assim parecia viver até à consumação dos séculos. Vai senão quando raia este ano de 77, e o mísero, que parecia vender saúde aparece com um nariz de palmo e meio e os olhos mais profundos do que as convicções de um eleitor. Já é!
Esta moléstia será mortal, ou teremos o gosto de o ver ainda restabelecido? Só o saberemos em 78. Esse é o ano decisivo. Se aparecer tão amarelo, como desta vez, e não contar com ele por coisa nenhuma e tratar de substituí-lo.
II
Caso venha a dar-se essa hipótese, vejamos desde já o que nos deixará o defunto. Uma coisa. Aposto que não sabem o que é? Um problema filológico.
Os futuros lingüistas deste país percorrendo os dicionários, igualmente futuros, lerão o termo bisnaga, com a definição própria: uma impertinência de água-de-cheiro (ou de outra), que esguichavam sobre o pescoço dos transeuntes em dias de carnaval.
—Bom! Dirão os lingüistas. Temos notícia do que era bisnaga. Mas por que esse nome? donde ele vem? Quem o trouxe?
Neste ponto dividir-se-ão os lingüistas.
Uns dirão que a palavra é persa, outros sânscrita, outros groenlandesa. Não faltará quem a vá buscar na Turquia; alguns a acharam em Apúlio ou Salomão.
Um dirá:
—Não, meus colegas,nada disso; a palavra é nossa e só nossa. É nada menos do que uma corrução de charamela, mudado o cha em bis e o ramela em naga.
Outro:
—Também não. Bisnaga, diz o dicionário de certo Morais que existiu ali pelo século XIX, que é uma planta de talo alto. Segue-se que a bisnaga carnavalesca era a mesma bisnaga vegetal, cujo sumo, extremamente cheiroso , esguichava quando a apertavam com o dedo.
Cada um dos lingüistas escreverá uma memória em que provará, à força de erudição e raciocínio, que seus colegas são pouco mais do que ruços pedreses. As Academias celebrarão sessões noturnas para liquidar esse ponto máximo. Haverá prêmios, motes, apostas, duelos, etc.
E ninguém se lembrará de ti, bom e galhofeiro Gomes de Freitas, de ti que és o único autor da palavra, que aconselhavas a bisnaga, e a grande arnica, no tempo em que o esguicho apareceu, por cujo motivo puseram o nome popularizado por ti.
Teve a bisnaga uma origem alegre, medicinal e filosófica. Isto é o que não hão de saber nem de dizer os grandes sábios do futuro. Salvo, se certo número da Ilustração chegar até eles, em cujo caso lhes peço o favor de me mandarem a preta dos pastéis.
III
Falei há pouco do que há de substituir o carnaval, se ele definitivamente expirar. Deve ser alguma coisa igualmente alegre: por exemplo, a Porta Otomana.
Vejam isto! Um ministro patriota leva a entreter toda a Europa a roda de uma mesa, a fazer cigarros das propostas diplomáticas, a dizer aos ministros estrangeiros que eles são excelentes sujeitos para uma partida de whist ou qualquer outro recreio que não seja impor a sua à Turquia; os ditos ministros estrangeiros desesperam, saem com um nariz de duas toesas, dando a Turquia a todos os diabos; vai senão quando o Jornal do Comércio publica um telegrama em que nos diz que o dito ministro turco, patriota, vencedor da Europa, foi destituído por conspirar contra o Estado!
Alá! Aquilo é governo o Pera de Satanás? Inclino-me a crer que é simplesmente Pera. A porta tem muitos outros e vários alçapões, por onde sai ou mergulha, ora um sultão, ora um grão-vizir, de minuto a minuto ao som de um apito vingador. Todas as mutações são à vista. Eu, se na Turquia tivesse a infelicidade de fazer um dos primeiros papéis, metia claque na platéia para ser pateado. Creio que é o único recurso para voltar inteiro ao camarim.
IV
(continua...)
ASSIS, Machado de. História de quinze dias. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, s.d.