Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
—Oh! mil vezes. não! a visão do mal me envenenará talvez a vida; mas há de ser o meu escudo contra os pérfidos, e me acenderá luz para livrar-me dos laços da traição.
Eu sinto já que a minha miopia moral vai se desvanecendo sob o influxo de uma ciência amarga, desconsoladora, triste, comprimente; a ciência do mal; em todo caso porém ciência.
Eu já compreendo e reflito; já sei meditar, e resolver por mim; não sou mais o pupilo perpétuo do mano Américo. A visão do mal emancipou-me.
Dói-me ter perdido a suave, a deleitosa crença da lealdade do amor dos parentes; dói-me, porém acabo de perdê-la.
VII
A miopia moral, a ignorância completa do mal, a inocência conservaram-me até esta manhã franco, simples, sem uma nuvem de suspeita na alma, sem desconfiança dos outros, e com o coração aberto, transparente aos olhos de todos.
O conhecimento do mal vai operando em mim forçosa modificação de idéias e de sentimentos.
Já sei que é preciso fingir: já o sei; porque estou determinado a esconder de Américo, da tia Domingas, de Anica e de todos a principal virtude da minha luneta: direi que por meio dela distingo melhor, mas ainda imperfeitamente os objetos.
Vou portanto dissimular e enganar; primeira lição da ciência do mal que a visão do mal me está dando; primeiro passo no caminho tortuoso da desmoralização; mas inevitável; porque é preciso dissimular e enganar para defender-me de parentes desamorosos e pérfidos e para, cauteloso e seguro, realizar projetos que desde alguns minutos fervem no meu espírito exaltado pelos ressentimentos do coração.
Nas latas do mundo devo bater-me com armas iguais às daqueles que me hostilizam: dissimulação contra dissimulação, engano contra engano.
Em uma hora experimentei três desilusões que me envelheceram trinta anos! os gelos de três desenganos apagaram no meu seio é fogo santo de três afeições profundas, inocentes e puras.
IX
Tenho na mente uma providência que me é necessário tomar em breves dias; tenho no coração um vácuo que ardentemente desejo preencher sem precipitação, mas quanto antes.
Quando retirar do mano Américo a gerência da minha fortuna: eis a providência que vou tomar; acharei um procurador zeloso, prudente e honrado que se incumba deste negócio, e o efetue sem escândalo, e sem descrédito de meu irmão, a quem não me dirigirei sobre este assunto; porque me repugna expor-me ao extremo de confundi-lo em face.
Não preciso de informações nem de recomendações para a escolha do meu procurador: a minha luneta mágica me ensinará qual dentre muitos merecerá ser preferido.
Hoje mesmo darei principio a este estudo, aos trabalhos desta descoberta ou preferência.
O preenchimento do vácuo do coração é mais difícil, e há de ser mais moroso.
Estou; mas não é admissível que eu possa viver sem família.
Estou sem família, a visão do mal rompeu os laços que me ligavam aos meus três e únicos parentes.
Essas três afeições, essas três únicas flores do jardim do meu coração marcharam para sempre, e o meu seio ficou deserto e noite.
Nasci para amar, tenho sede de amor; não posso viver assim.
A família, é na terra a beatificação da vida do homem; a família, é o mundo em festa no lar doméstico; a família, é a imensa vida de amor, em que se identificam algumas vidas que se amam, que se abraçam, que se completam; a família, é a consolação no infortúnio, o suave descanso no fim do trabalho e das lidas, é o rir de muitos pela felicidade de cada um de seus membros, é na extrema hora o colo em que se encosta a cabeça para dormir o último sono, é o pranto de amor que orvalha a sequidão da morte, a mão de amor que, religiosa, fecha os olhos do morto.
Eu quero ter família, não posso viver sem ela.
Estou como enjeitado que sai do hospício estou só, sem um parente, estou—deserto e noite, e aspiro sociedade e luz.
O enjeitado não tem; mas pode criar e cria uma família, para si, procura uma mulher, e abre-lhe o coração; a mulher o faz esquecer o deserto e a noite do passado, dando-lhe a sociedade, e acendendo-lhe a luz do presente e do futuro.
A mulher é a placenta da família, é a criação privilegiada, a última e a mais mimosa criação de Deus, que em um sorrir divino nela derramou a graça que encerra o encanto da vida do homem. Eu quero procurar uma mulher jovem, bela e pura, que me dê família, eu estou deserto e noite; quero receber a companhia do coração e a luz dos olhos de uma mulher formosa e santa; quero um anjo, a cujas asas brancas me prenda, para sair do deserto e da noite.
Avalio bem as proporções imensas da minha aspiração; mas a luneta mágica me deixa ler os segredos de todas as almas, e, mercê desse encantado privilégio, hei de achar o botão de inocência que almejo, a noiva—anjo da terra que adorarei perpetuamente.
(continua...)