Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Pois temos dito o aparelho que a Bahia tem para se fortificar e defender dos corsários, se a forem cometer, saibamos se tem alguns aparelhos naturais da terra com que se possam ofender seus inimigos, não falando nos arcos e flechas do gentio, com o que os escravos da Guiné, mamelucos, e outros muitos homens bravos naturais de terra sabem pelejar, do que há tanta quantidade nesta província; mas digamos das maravilhosas armas de algodão que se fazem na Bahia, geralmente por todas as casas dos moradores, as quais não passa besta, nem flecha nenhuma; do que se os portugueses querem antes armar que de cossoletes, nem couraças; porque a flechada que dá nestas armas resvala por elas e faz dano aos companheiros; e deste estofado de algodão armam os portugueses os corpos e fazem do mesmo estofado celados para a cabeça, e muito boas adargas. Fazem também na Bahia paveses e rodelas de copaíba, de que fizemos menção quando falamos da natureza desta árvore, as quais rodelas são tão boas como as do adargueiro, e davantagem por serem mais leves e estopentas, do que se farão infinidade delas muito grandes e boas.Dão-se na Bahia muitas hastes de lanças do comprimento que quiserem, as quais são mais pesadas que as de faia, mas são muito mais fortes e formosas; e das árvores de que estas hastes tiram, há muitas de que se pode fazer muita picaria, e infinidade de dardos de arremesso, que os tupinambás sabem muito bem fazer.E chegando ao principal, que é a pólvora, em todo o mundo se não sabe que haja tão bom aparelho para ela como na Bahia, porque tem muitas serras que não têm outra coisa senão salitre, o qual está em pedra alvíssima sôbre a terra, tão fino que assim pega o fogo dele como de pólvora mui refinada; pelo que se pode fazer na Bahia tanta quantidade dela que se possa dela trazer tanta para a Espanha, com que se forneçam todos os Estados de que Sua Majestade é rei e senhor, sem esperar que lhe venha da Alemanha, nem de outras partes, de onde trazem este salitre com tanta despesa e trabalho, do que se deve de fazer muita conta.
C A P Í T U L O CXCIII
Em que se declara o ferro, aço e cobre que tem a Bahia.
Bem por culpa de quem a tem não há na Bahia muitos engenhos de ferro, pois o ela está mostrando com o dedo em tantas partes, para o que Luís de Brito levou aparelhos para fazer um engenho de ferro por conta de S. A. e oficiais dêste mister; e o porque se não fez, não serve de nada dizer-se; mas não se deixou de fazer por falta de ribeiras de água, pois a terra tem tantas e tão capazes para tudo; nem por falta de lenha e carvão, pois em qualquer parte onde os engenhos de ferro assentarem há disto muita abundância. Também na Bahia, trinta léguas pela terra adentro, há algumas minas descobertas sobre a terra de mais fino aço que o de Milão; o qual está em pedra sem outra nenhuma mistura de terra nem pedra; e não tem que fazer mais que lavrar-se em vergas para se poder fazer obra com ele, do que há muita quantidade que está perdido sem haver quem ordene de o aproveitar; e desta pedra de aço se servem os índios para amolarem as suas ferramentas com ela a mão.E cincoenta ou sessenta léguas pela terra adentro tem a Bahia uma serra muito grande escalvada, que não tem outra coisa senão cobre, que está descoberto sobre a terra em pedaços, feitos em concavidades, crespo, que não parece senão que foi já fundido, ou, ao menos, que andou fogo por esta serra, com que se fez este lavor no cobre, do que há tanta quantidade que se não acabará nunca. E nesta serra estiveram por vezes alguns índios tupinambás e muitos mamelucos, e outros homens que vinham do resgate, os quais trouxeram mostras deste cobre em pedaços, que se não foram tantas as pessoas que viram esta serra se não podia crer senão que o derreteram no caminho de algum pedaço de caldeira que levavam; mas todos afirmaram estar este cobre daquela maneira descoberto na serra.
C A P Í T U L O CXCIV
Em que se trata das pedras verdes e azuis que se acham no sertão da Bahia.
Deve-se também notar que se acham também no sertão da Bahia umas pedras azuis-escuras muito duras e de grande fineza, de que os índios fazem pedras que metem nos beiços, e fazem-nas muito roliças e de grande lustro, roçando-as com outras pedras, das quais se podem fazer peças de muita estima e grande valor, as quais se acham muito grandes; e entre elas há algumas que têm umas veias aleonadas que lhes dão muita graça.No mesmo sertão há muitas pedreiras de pedras verdes coalhadas, muito rijas, de que o gentio também faz pedras para trazer nos beiços, roliças e compridas, as quais lavram como as de cima, com o que ficam muito lustrosas; do que se podem lavrar peças muito ricas e para se estimarem entre príncipes e grandes senhores, por terem a cor muito formosa; e podem se tirar da pedreira pedaços de sete e oito palmos, e estas pedras têm grande virtude contra a dor de cólica.Em muitas outras partes da Bahia, nos cavoucos que fazem as invernadas na terra, se acham pedaços de finíssimo cristal, e de mistura algumas pontas oitavadas como diamante, lavradas pela natureza que têm muita formosura e resplandor. E não há dúvida senão que entrando bem pelo sertão desta terra há serras de cristal finíssimo, que se enxerga o resplandor delas de muito longe, e afirmaram alguns portugueses que as viram que parecem de longe as serras da Espanha quando estão cobertas de neve, os quais e muitos 'mamelucos e índios que viram essas serras dizem que está tão bem criado e formoso este cristal em grandeza, que se podem tirar pedaços inteiros de dez, doze palmos de comprido, e de grande largura e fornimento, do qual cristal pode vir à Espanha muita quantidade para poderemfazer dele obras mui notáveis.
C A P Í T U L O CXCV
Em que se declara o nascimento das esmeraldas e safiras.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.