Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
A maior parte da cal que se faz na Bahia é das cascas das ostras, de que há tanta quantidade que se faz dela muita cal, a que é alvíssima, e lisa também, como a de Alcântara; e fazem-se dela guarnições de estuque mui alvas e primas; e a cal que se faz das ostras é mais fácil de fazer que a de pedras; porque gasta pouca lenha e com lhe fazerem fogo que dure dez, doze horas, fica muito bem cozida, e é tão forte que se quer caldeada, e ao caldear ferve em pulos como a cal de pedra de Lisboa. Quanto mais que, quando não houvera este remédio tão fácil, na ilha de Itaparica se faz muita, que se vende a cruzado o moio; a qual cal é muito estranha, porque se faz de umas pedras que se criam no mar neste sítio desta ilha e em outras partes, as quais são muito crespas e artificiosas para outras curiosidades, e não nascem em pedreiras, mas acham-se soltas em muita quantidade. Estas pedras são sobre o leve, por serem por dentro organizadas com alfebas. Esta pedra se enforna em fornos de arcos, como os em que coze a louça, com sua abóbada fechada por cima da mesma pedra, mas sobre os arcos está o forno todo cheio de pedra, e o fogo mete-selhe por baixo dos arcos com lenha grossa, e coze numa noite e um dia, e coze muito bem; cuja cal é muito alva, e lia a obra que se dela faz como a de Portugal, e caldeiam-na da mesma maneira; mas não leva tanta areia como a cal que se faz das ostras e de outro qualquer marisco, de que também se faz muito alva e boa para todas as obras. Quanto mais que, quando não houvera remédio tão fácil para se fazer infinidade de cal como o que está dito, com pouco trabalho se podia fazer muita cal, porque na Bahia, no rio de Jaguaripe, e em outras partes, há muita pedra lioz, como a de Alcântara, com umas veias vermelhas, a qual pedra é muito dura, de que se fará toda obra-prima, quanto mais cal, para o que se tem já experimentado e coze muito bem; e se se não valem dela para fazerem cal é porque acham estoutro remédio muito perto, e muito fácil; e para as mesmas obras e edifícios que forem necessários, tem a Bahia muito barro de que se faz muita e boa telha, e muito tijolo de toda a sorte; do que há em cada engenho um forno de tijolo e telha, nos quais se coze também muito boa louça e formas que se fazem do mesmo barro.
C A P Í T U L O CLXXXIX
Em que se declara os grandes aparelhos que há na Bahia para se nela fazerem grandes armadas.
Pois sobejam aparelhos à Bahia para se poder fortificar, entenda-se que lhe não faltam para se poder fazer grandes armadas com que se possa defender e ofender a quem contra o sabor de Sua Majestade se quiser apoderar dela, para o que tem tantas e tão maravilhosas e formosas madeiras, para se fazerem muitas naus, galeões e galés, para quem não faltarão remos, com que se êles possam remar, muito extremados, como já fica dito atrás; pois para se fazer muito tabuado para estas embarcações sobeja cômodo para isso, porque há muitas castas de madeiras, que se serram muito bem, como em seu lugar fica dito; para as quais o que falta são serradores, de que há tantos na Bahia escravos de diversas pessoas, que, convindo ao serviço de Sua Majestade trabalharem todos e fazer tabuado, ajuntar-se-ão pelo menos quatrocentos serradores escravos muito destros, e duzentos escravos carpinteiros de machado; e ajuntar-se-ão mais quarenta carpinteiros da ribeira, portugueses e mestiços, para ajudarem a fazer as embarcações, os quais se ocupam em fazer navios que na terra fazem, caravelões, barcas de engenho e barcos de toda a sorte. O que resta agora de madeira para fazerem estas naus e galés são mastros e vergas; disto há mais aparelho na Bahia que nas províncias de Flandres; porque há muitos mastros inteiros para se emastrearem naus de toda a sorte, e muitas vergas, o que tudo é mais forte do que os de pinho e de mais dura (mas são mais pesados), o que tudo se achará à borda da água. Bem sei que me estão já perguntando pela pregadura para essas armadas, ao que respondo que na terra há muito ferro de veias para se poder lavrar, mas que enquanto se não lavra será necessário vir de outra parte; mas se a necessidade fôr muita, há tantas ferramentas na terra de trabalho, tantas ferragens dos engenhos que se poderão juntar mais de cem mil quintais de ferro; e porque tarde já em lhe dar ferreiro, digo que em cada engenho há um ferreiro com sua tenda, e com os mais que têm tenda na cidade e em outras partes se pode juntar cincoenta tendas de ferreiros, com seus mestres obreiros.
C A P Í T U L O CXC
Em que se apontam os quais aparelhos que há para se fazerem estas armadas.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.