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#Crônicas#Literatura Brasileira

História de quinze dias

Por Machado de Assis (1900)

Ao Museu iriam eles ter se fossem de simples estanho. Por que não irão se forem de ouro? O ouro é para nós uma grande coisa; Compram-se melões com ele. Mas para a arqueologia todo o metal tem igual valor. 

Eram de prata os objetos encontrados quando se demoliu a Praça do Comércio, e entretanto devo crer que estão no Museu, porque pertencem à arqueologia, a arqueologia, que é uma velha rabugenta e avara. 

Pode ser que eu esteja em engano; mas é provável que sejam os outros. 

IV 

Os touros instalaram-se, tomaram pé, assentaram residência entre nós. As duas primeiras corridas estiveram muito concorridas... Há nisto uma repetição de sílabas, mas a urgência dispensa a correção e o floreio: 

...qui mi scusi 

A urgência, si fior la penna abborra. 

Tem havido pois muito entusiasmo. Frascuelo é a coqueluche da cidade. Que digo? Frascuelo é o frasquinho; único diminutivo consoante a seu nome. 

Os touros é que dizem não ser de primeira bravura. Alguns parecem ser de antes do pecado original, quando no Paraíso, os lobos dormiam com os cordeiros, há quem suspeite que um deles é simplesmente pintado em papel; touro de cosmorama.

Ainda assim o público os aplaude, e aos capinhas, a quem lança charutos, chapéus e níquel. Dizem efetivamente que o pessoal é bom; eu ainda não pude ir lá, mas irei na primeira ocasião. 

Outras corridas se preparam na Rua da Misericórdia. Essas são mais animadas, os touros são mais bravos, os capinhas mais fortes. Se esta metáfora ainda não disse ao leitor que eu aludo à câmara temporária, então perca a esperança de entender de retórica, e passe bem. 

[7] 

[15 janeiro] 

LIVRO I 

ALELUJA! ALELUIA! 

AGORA, SIM, senhor. Eu já sentia a falta dele. Eu e todo este povo andávamos tristes, sem motivo nem consciência, andávamos sorumbáticos, caquéticos, raquíticos, misantrópicos e calundúticos. Não me peçam os brasões do último vocábulo; posso dá-los em outra ocasião. Por agora sinto-me alvoroçado, nada menos que redivivo. 

Que este século era o século das serrilhas, nenhum homem há que se atreva a negá-lo, salvo se absolutamente não tiver uma onça de miolos na cabeça. Como vai Vm. da sua tosse? pergunta há anos um droguista nas colunas dos nossos jornais. Frase que mostra toda a solicitude que pode haver na alma de um droguista, e de quanta complacência se compõe uma panacéia anticatarral E com essa frase o droguista não só amola os olhos e a paciência do leitor, como lhe impinge suas abençoadas pastilhas, a troco de cinco ou seis mil-réis. 

Essa é a serrilha medicinal. A serrilha européia compõe-se de muitas serrilhas, começando na questão do Oriente e acabando na questão espanhola. Há serrilhas de todas as cores e feitios, sem contar a chuva, que não tem feitio nem cor, e encerra em si todas as outras serrilhas do Universo. 

De todas elas porém, a que nos dera mais no goto, a que nos sustinha neste vale de lágrimas, a que nos dava brio e força, era.. . era ele, o eterno, o redivivo, o nunca assaz louvado Rocambole, que eu julgava perdido para sempre, mas que afinal ressurge das próprias cinzas de Ponson du Terrail. 

Ressurgiu. Eu o vi (não o li) vi-o com estes olhos que a terra há de comer; nas colunas do Jornal, a ele e mais as suas novas façanhas pimpão, audaz, intrépido, prestes a mudar de cara e de roupa e de feitio, a matar, roubar, pular, voar e empalmar. 

Certo é que nunca o vi mais gordo. Eu devo confessar este pecado a todos os ventos do horizonte; eu (cai me a cara ao chão), eu... nunca li Rocambole, estou virgem dessa Ilíada de realejo. Vejam lá; eu que li os poetastros da Fênix Renascida, osromances de Ana Radeliffe, o Carlos Magno, as farsas de barbante, a Brasilíada do Santos e Silva, e outras obras mágicas, nunca jamais em tempo algum me lembrou ler um só capítulo do Rocambole. Inimizade pessoal? Não, posso dizer à boca cheia que não. Nunca pretendemos a mesma mulher, a mesma eleição ou o mesmo emprego. Cumprimentamo-nos, não direi familiarmente, mas com certa afabilidade, a afabilidade que pode haver entre dois boticários vizinhos, um gesto de chapéu. 

Perdão; ouvi-o no teatro, num drama que o Furtado Coelho representou há anos. Foi a primeira e única vez que me foi dado apreciar cara a cara, o famoso protagonista. Não sei que autor (francês ou brasileiro? não me lembra) teve a boa inspiração de cortar um drama do romance do Ponson du Terrail, idéia que o Furtado lhe agradeceu do íntimo d’alma, porque o resultado pagou-lhe o tempo. 

E sem embargo de não o haver lido, mas visto e ouvido somente, gosto dele, admiro-o, respeito-o, porque ele é a flor do seu e do meu século, é a representação do nosso Romantismo caduco, da nossa grave puerilidade. Vem a propósito uma comparação que farei no segundo livro. 

LIVRO II 

(continua...)

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