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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

E mais viva do que a minha imagem vi a do mano Américo que é muito mais rico do que eu (sem dúvida porque ele pensando por dois, pensava mais e melhor em si, do que por mim é em mim), vi a imagem do mano Américo, outra hipótese de marido, mais desejada, mais afagada do que a minha hipótese, mas só com afagos de cálculo, e sem um ligeiro afago de amor.

E, à exceção do gelo e do cálculo, coração morto na vida, alma estéril, seca, inóspita.

Anica e a mulher do egoísmo sublime: contanto que lhe dessem boa casa, boa mesa, bom jardim e melhor pomar, amas se tivesse filhos, criados que a deixassem não trabalhar, silêncio e isolamento à noite para dormir à vontade, poderia enviuvar vinte vezes, dando à memória de seus finados, não a consolação das lágrimas do amor e da saudade, mas a da certeza de não ter sido infiel, nem falsa a nenhum deles menos por virtude, do que pela acerbidade e aridez de sua alma enregelada. Que mulher! olhos sem lágrimas, terra sem vegetação, mar sem ondas nem tempestades, céu sem estrelas e horizonte sem nuvens, natureza, rochedo.

Desviei a minha luneta dessa mulher, campo árido, deserto infindo de áreas estéreis sem um só oásis consolador.

Mulher-cálculo, mulher-aritmética, mulher sem sentimento, mulher sem amor, mulheregoísmo é um triunfo da matéria sobre o espírito mais terra do que céu, mais pó do que alma, mais lodo do que pureza da eternidade; é a mulher-monstro que calunia a mulher criada por Deus; é um assombro que se faz admirar pela hediondez.

A prima Anica tornara-se para mim repulsiva, mais do que repulsiva, repugnante.

Jurei que nunca mais fixaria nela a minha luneta mágica.



VI

Amarga desilusão acabava de obumbrar-me o animo: a prima Anica que tanto procurava agradar-me e que pudibunda recorria aos apólogos para manifestar-me a ternura dos seus sentimentos, a prima Anica que eu reputava o símbolo do amor mais puro e desinteressado, não era mais do que uma mulher insensível, egoísta, e somente preocupada dos gozos da vida animal!...

Eu nunca sentira amor pela prima Anica; mas votava-lhe amizade fraternal, e experimento verdadeira mágoa, reconhecendo que não mais posso estimá-la como dantes. Doce amizade! é uma flor de menos no jardim do meu coração.

Entretanto não me arrependo de haver-lhe devassado a alma, e descoberto a verdade dos seus sentimentos mesquinhos e vis: esta senhora, pelo menos não há de mais enganar-me.

As vozes do mano Américo e da tia Domingas que, entrando juntos no Jardim, dirigiam gracejos a Anica, chamaram a minha atenção.

Eu já não combatia mais a curiosidade da visão do mal: o conhecimento a que eu chegara, da falsidade da prima Anica, me excitava o desejo de esmerilhar os segredos de outros corações. Lancei a luneta sobre o mano Américo e observei-o: mancebo de agradável parecer, é pena que seus olhos, aliás bonitos, não tenham firmeza no olhar, que não se demora em objeto algum e parece ou temeroso ou movido por preocupações do espírito a divagar estonteado, ou a fugir à observação dos homens; além desse defeito, notei que sua boca escapara de ficar sem lábios, tão finos são estes, e que o seu sorrir mostrava ser antes uma concessão artificial de aparente alegria, do que sinal espontâneo de íntima ledice'.

E passaram três minutos: oh! minha cega e imensa credulidade! o político patriota era apenas um ambicioso vulgar! o nome da pátria era uma alavanca, a dedicação ao povo um meio de construir escada: Américo queria subir, queria ter influência; mas nem ao menos por vaidade, ou também um pouco por vaidade; somente porém por cálculos de fortuna, somente para explorar as posições oficiais em seu proveito material; desprezava as graças, os títulos nobiliários, o brilhantismo da corte, as fardas de ricos bordados de ouro; mas desejava tudo isso como sinais de importância pessoal para negociar ainda mesmo com as exterioridades; talentoso, instruído, hábil, vende-se ou vender-se-á, aluga-se ou alagar-se-á sem parecer que o faz, ostenta e ostentará independência e abnegação, não pedindo jamais ao governo favor algum para si; mas fará questão de um contrato, cuja celebração irá dar contos de réis à sua mesa de advogado; fará questão de um privilegio para a empresa de que não é, nem será acionista; mas cuja gratidão já foi em segredo ajustada. Sua eloqüência será ameaça viva a todos os ministérios novos; o leão parlamentar porém se deixará levar por um fio de seda, que ele transformará oportunamente em corrente de favores, não para si, só para amigos, cujo reconhecimento nada tem com as suas relações com os ministros; e servirá ao Estado, e será patriota assim, e subirá, e há de ser grande na sua terra.

(continua...)

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